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O ano de 2005 inicia-se sob o signo da instabilidade política,
da incerteza quanto ao sentido próximo da evolução da
economia portuguesa e europeia, da certeza de uma situação
de crise grave das finanças públicas portuguesas. A
situação financeira do País é caracterizada por um défice
orçamental que, se determinado de acordo com as regras e
procedimentos de 2001/2002, se poderá situar na vizinhança
de 6%; por uma dívida pública cuja dinâmica de
crescimento (+10 p.p. nos últimos três anos) deixa
enormes preocupações quanto à sua sustentabilidade
inter-temporal; por um novo “disparo” do crescimento
da despesa corrente primária.
A situação económica nacional, além de reflectir uma
conjuntura externa difícil, exprime principalmente
problemas estruturais de competitividade e de
produtividade que, não sendo novos, se agravam em virtude
de um duplo choque de ajustamento a que está submetida.
• Por um lado, o alargamento da UE que cria mais dimensão,
abertura e concorrência dentro do mercado único europeu
acentuada pela inclusão plena da China e de outros Países
asiáticos na economia global.
• Por outro, a integração na Zona Euro a que,
felizmente, Portugal pertence desde a primeira hora, criou
um novo regime económico que alterou profundamente as
regras de funcionamento e o perfil da política económica.
O resultado “líquido” deste conjunto de problemas é
uma quebra do crescimento e da geração de riqueza e,
simultaneamente, um enorme cepticismo a nível das famílias,
de muitas empresas e na sociedade em geral.
O grande desafio que se coloca a toda a sociedade
portuguesa para 2005 é criar um “ponto de viragem”
nesta trajectória de depauperamento económico e, até,
de alguma deliquescência social que se criou nos últimos
anos.
O que fazer?
Em 1º lugar, é indispensável e incontornável a criação
de condições de estabilidade política sólida e
duradoura. Desde 2000, Portugal vai ter o 4º
primeiro-ministro; o 5º ministro das Finanças; o 6º
ministro da Economia e o 7º ministro das Obras Públicas.
Como se pode, num tal contexto de volatilidade política,
gerar e induzir confiança e credibilidade?
As eleições do próximo dia 20 de Fevereiro são um
momento chave para travar esta espiral. A formação de
uma maioria parlamentar absoluta, politicamente
consistente e com uma visão reformadora e modernizadora
para Portugal, é um desafio que está colocado ao
eleitorado e que só a ele cabe decidir.
Por mim, não tenho dúvidas: a alternativa a esta solução
política será a continuação da instabilidade política
latente, a ameaça da crise permanente o provável
endosso, para depois das próximas eleições
presidenciais, de um novo “momentum” de clarificação
política.
Em 2º lugar, é indispensável um programa imediato e
concreto de estabilização das finanças públicas que
trave o descontrolo e a disrupção em que o actual
governo deixa a situação financeira do País. Neste domínio,
como escreveu recentemente o governador do Banco de
Portugal, chegou a hora da verdade. Não há mais margem
para discussões intermináveis sobre o “método orçamental
quimicamente puro” ou sobre a “epistemologia da falsa
dialéctica crescimento/consolidação”.
A questão das finanças públicas é comum a qualquer família:
não podemos gastar no presente aquilo que não temos em
rendimento permanente, nem fingir que teremos, no futuro,
aquilo que imprudentemente estamos a hipotecar no
presente.
Para definir as medidas de emergência que consagrem a
necessária estabilização financeira é indispensável
determinar de que situação partimos à luz da mesma
doutrina definida pela comissão que, em 2002, analisou as
contas públicas e saber, entre outras situações:
• se as cativações previstas no OE-2005 estão a ser
respeitadas;
• se a receita fiscal de 2004 e 2005 é líquida das
receitas cobradas em 2004 e 2005, mas “titularizadas”
em 2003;
• se os compromissos avalizados pelo Estado, em relação
a empresas ou entidades públicas fora do SPA, são
objecto de imputação a despesa orçamental;
• se o OE rectificativo de 2004 saldou todos os
“atrasados” do Estado a fornecedores.
No seguimento das medidas de emergência tem de ser
desenhado e concretizado, a partir do OE-2006, um programa
plurianual de consolidação das finanças públicas, cujo
objectivo seja, no prazo da legislatura, a reabsorção do
défice excessivo legado pelo actual Governo para valores
compatíveis com o Pacto de Estabilidade e Crescimento.
Em 3º lugar, e para além de um “choque estrutural”
(onde se insere o “Plano Tecnológico”), a economia
portuguesa precisa de um “esticão” de curto prazo que
relance o investimento privado e mobilize os recursos
disponíveis de investimento público.
Para isto, o essencial é pôr em andamento programas e
projectos que há três anos vêm sendo adiados ou
paralisados, não por falta de recursos, mas a maior parte
das vezes por inépcia e incompetência políticas da
maioria dos responsáveis governamentais.
Considerando, apenas, os sectores energético e ambiental,
as redes de ferrovias, rodovias e portuárias e o turismo,
há espaço para a mobilização de investimentos
superiores a 20 mil milhões de euros no período da próxima
legislatura, cuja origem tem de ser essencialmente o
sector privado e o investimento directo estrangeiro.
Como já referi, este “esticão” não dispensa o
“choque estrutural”. Mas a concretização deste, com
efeitos prolongados no tempo, não pode nem deve
desvalorizar a importância daquele.
Em 4º lugar, é indispensável liberalizar mais o
funcionamento dos mercados ainda protegidos, derrubando os
“muros” do proteccionismo e criando efectiva concorrência.
Os “alvos” prioritários deverão ser todos os
segmentos do mercado eléctrico e das telecomunicações,
bem como a liberalização do mercado do gás natural, de
combustíveis e do comércio.
A concretização desta
«agenda económica» é o grande desafio para 2005.
Assim, este poderá ser um «ano de transição» para o
relançamento sustentado do crescimento e do emprego; para
uma consolidação sólida das finanças públicas; para a
reconstrução da confiança, da sociedade portuguesa em
si própria e nas suas forças reformadoras e
modernizadoras.
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