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OPINIÃO

 
 

Rui Pereira de Melo,

Presidente da Associação Nacional das Empresas das Tecnologias de Informação e Electrónica (ANETIE)

 

Um bom ano (ou não ...) para as TI nacionais

Apenas dois cenários se apresentam: Ou o Governo saído das eleições percebe claramente que não pode parar as diversas iniciativas mobilizadoras da sociedade do conhecimento e da inovação tecnológica e não descurar que há uma indústria nacional a proteger.

Ou o futuro Governo resolve pôr tudo em causa, suspende e reformula na íntegra, criando um impasse no sector semelhante ao que ocorreu no início de 2002.

Como somos todos inteligentes, estou convicto de que só o 1º cenário se pode verificar, pelo que teremos pela frente um bom ano para a indústria de Tecnologias de Informação

 

Após os difíceis anos de 2002 e 2003, em 2004 as empresas do sector das Tecnologias de Informação (TI) concluíram, de uma forma generalizada o processo de “arrumação da casa”, possuindo hoje estruturas de custos mais ajustadas à realidade e os seus portfólios de soluções devidamente estruturados. De igual forma, apresentam-se ao mercado mais focadas nos reais problemas dos clientes e com vontade de empreender, de inovar e de regressar aos crescimentos.

No entanto, em 2004 factos externos ao mercado e directamente relacionados com os “infernais” ciclos políticos em que Portugal se viu mergulhado, vieram a ter um fortíssimo impacto na expansão que se previa sólida e que se deve ter saldado por “muito ténue” ou mesmo “nula”.

Com efeito, numa economia fortemente dependente dos investimentos da Administração Pública (e não adianta dizer que não devia ser assim, porque todos concordamos), as demissões dos primeiros-ministros (Dr. Durão Barroso e Dr. Santana Lopes) vieram introduzir um nível de perturbação insustentável e uma inevitável suspensão/adiamento “sine die” de muitos dos projectos de modernização de que o país tanto carece, tanto no Estado como no sector privado.

Partindo do princípio de que as próximas eleições produzirão um quadro governativo estável, afinal quais serão os factores críticos para um bom desempenho sectorial?

Com efeito, há anos que se discute a competitividade da indústria de Tecnologias de Informação em Portugal e quais as principais barreiras ao seu desenvolvimento. 

Quanto a mim, os principais inibidores ao desenvolvimento da indústria das TI em Portugal são a sua diminuta massa crítica, a baixa auto-estima dos portugueses e a fraca dimensão internacional das nossas empresas.

No que diz respeito aos dois primeiros factores, e sendo certo que qualquer empresa se deve primeiro fortalecer nos seus mercados domésticos, para depois se internacionalizar, os principais responsáveis são todos os decisores nacionais de compras de TI que não percebem a diferença entre indústria e comércio, que se deslumbram com tudo o que vem do estrangeiro, que se demitem de “pensar” e de “trabalhar” com os seus concidadãos, que se sentem mais confortáveis com a importação de modelos estereotipados (pelos quais pagam milhões e que depois se envergonham de vir publicamente dizer que não funcionam) e que ignoram todos aqueles que, independentemente da nacionalidade dos capitais, pretendem investir seriamente em Portugal no desenvolvimento de soluções replicáveis e geradoras de fortes mais-valias para o País.

Por outro lado, e como consequência directa das dificuldades económicas, os compradores habituaram-se a “comprar barato” e a “esmagar preços”, não se apercebendo das consequências negativas que a continuação de tais políticas seguramente provocarão em termos da degradação da qualidade dos serviços e da estrutura financeira dos respectivos fornecedores, o que, levado às últimas consequências os pode fazer ficar a “falar sozinhos”!

No que diz respeito à fraca dimensão internacional (felizmente, existem algumas excepções…), as empresas apenas se podem queixar de si próprias e da sua falta de ambição. Talvez a única desculpa externa seja o baixo montante de capitais disponíveis para apoiar tais movimentos de ‘externalização’ económica, com o capital de risco à cabeça, pela sua recente prática sistemática de quase total indisponibilidade para o apoio às empresas do nosso sector.

Mas afinal quais são as saídas para as empresas do nosso sector? Na minha modesta opinião, a resolução do problema tem a ver com o equilíbrio do trinómio.

 

Ambição + Foco + «Networking»

– Ambição – porque tendo muitas vezes as melhores soluções, adoptamos uma atitude passiva e subserviente face aos competidores internacionais, que urge mudar de imediato;

– Foco – porque não podemos continuar a ter organizações que pretendem abarcar todas as vertentes das TI, com a pequena dimensão que, de uma forma geral, as nossas empresas possuem. Mesmo algumas das empresas globais, incomensuravelmente maiores e actuando em mercados de grandes dimensões, já perceberam essa lição;

– «Networking» – porque surge como a única forma de endereçar novos mercados, de partilhar os riscos inerentes aos processos da inovação e de aceder a competências actualizadas e altamente especializadas, que nenhum de nós pode manter em todas as sub-áreas tecnológicas.

E não estou a inventar nada. Basta verificar como é que funciona a indústria italiana da Moda, na região da Lombardia, com uma miríade de empresas com poucas dezenas de colaboradores, mas com uma forte especialização e sentido de cooperação.

Como estou convencido de que estes princípios já estão amplamente interiorizados pela nossa indústria, restam-nos as variáveis externas.

Curiosamente, o ano até parece estar a arrancar bem!

Talvez despertados pelas dificuldades presentes, mais aquelas que se avizinham, o certo é que, pela primeira vez, em muitos anos, vejo a indústria a mexer-se desde o momento “zero”, focada nos clientes, animada e comentando que “há muitas oportunidades” e que esperam fazer um bom 1º trimestre.

Mesmo na Administração Pública, o número de concursos públicos recentemente lançados tem vindo a registar uma inusitada e saudável actividade.

Naturalmente, a actual obsolescência dos Sistemas de Informação de muitas organizações, ditada por anos consecutivos de baixo investimento, não é nada alheia a esta potencial abertura no mercado.

Então de onde podem surgir as dificuldades?

Apesar dos discursos dos dois principais partidos candidatos a governar serem muito coincidentes em termos da importância das Tecnologias de Informação, creio que as dificuldades poderão vir da execução no período pós-eleitoral. E quanto a isto sejamos perfeitamente claros:

 

Apenas dois cenários se apresentam:

a) Ou o Governo saído das eleições percebe claramente que não pode parar as diversas iniciativas mobilizadoras da sociedade do conhecimento e da inovação tecnológica, naturalmente introduzindo melhorias pontuais, mas sempre com a perspectiva de que o importante é potenciar e acelerar os principais investimentos em TI agora suspensos e não descurar que há uma indústria nacional a proteger.

b) Ou o futuro Governo resolve pôr tudo em causa, suspende e reformula na íntegra, criando um impasse no sector semelhante ao que ocorreu no início de 2002, com a substituição quase simultânea da administração pública local e central.

Como somos todos inteligentes, estou convicto de que só o 1º cenário se pode verificar, pelo que teremos pela frente um bom ano para a indústria de Tecnologias de Informação

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