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Após os difíceis anos de 2002 e 2003, em 2004 as
empresas do sector das Tecnologias de Informação (TI)
concluíram, de uma forma generalizada o processo de
“arrumação da casa”, possuindo hoje estruturas de
custos mais ajustadas à realidade e os seus portfólios
de soluções devidamente estruturados. De igual forma,
apresentam-se ao mercado mais focadas nos reais problemas
dos clientes e com vontade de empreender, de inovar e de
regressar aos crescimentos.
No entanto, em 2004 factos externos ao mercado e
directamente relacionados com os “infernais” ciclos
políticos em que Portugal se viu mergulhado, vieram a ter
um fortíssimo impacto na expansão que se previa sólida
e que se deve ter saldado por “muito ténue” ou mesmo
“nula”.
Com efeito, numa economia fortemente dependente dos
investimentos da Administração Pública (e não adianta
dizer que não devia ser assim, porque todos concordamos),
as demissões dos primeiros-ministros (Dr. Durão Barroso
e Dr. Santana Lopes) vieram introduzir um nível de
perturbação insustentável e uma inevitável suspensão/adiamento
“sine die” de muitos dos projectos de modernização
de que o país tanto carece, tanto no Estado como no
sector privado.
Partindo do princípio de que as próximas eleições
produzirão um quadro governativo estável, afinal quais
serão os factores críticos para um bom desempenho
sectorial?
Com efeito, há anos que se discute a competitividade da
indústria de Tecnologias de Informação em Portugal e
quais as principais barreiras ao seu desenvolvimento.
Quanto a mim, os principais inibidores ao desenvolvimento
da indústria das TI em Portugal são a sua diminuta massa
crítica, a baixa auto-estima dos portugueses e a fraca
dimensão internacional das nossas empresas.
No que diz respeito aos dois primeiros factores, e sendo
certo que qualquer empresa se deve primeiro fortalecer nos
seus mercados domésticos, para depois se
internacionalizar, os principais responsáveis são todos
os decisores nacionais de compras de TI que não percebem
a diferença entre indústria e comércio, que se
deslumbram com tudo o que vem do estrangeiro, que se
demitem de “pensar” e de “trabalhar” com os seus
concidadãos, que se sentem mais confortáveis com a
importação de modelos estereotipados (pelos quais pagam
milhões e que depois se envergonham de vir publicamente
dizer que não funcionam) e que ignoram todos aqueles que,
independentemente da nacionalidade dos capitais, pretendem
investir seriamente em Portugal no desenvolvimento de soluções
replicáveis e geradoras de fortes mais-valias para o País.
Por outro lado, e como consequência directa das
dificuldades económicas, os compradores habituaram-se a
“comprar barato” e a “esmagar preços”, não se
apercebendo das consequências negativas que a continuação
de tais políticas seguramente provocarão em termos da
degradação da qualidade dos serviços e da estrutura
financeira dos respectivos fornecedores, o que, levado às
últimas consequências os pode fazer ficar a “falar
sozinhos”!
No que diz respeito à fraca dimensão internacional
(felizmente, existem algumas excepções…), as empresas
apenas se podem queixar de si próprias e da sua falta de
ambição. Talvez a única desculpa externa seja o baixo
montante de capitais disponíveis para apoiar tais
movimentos de ‘externalização’ económica, com o
capital de risco à cabeça, pela sua recente prática
sistemática de quase total indisponibilidade para o apoio
às empresas do nosso sector.
Mas afinal quais são as saídas para as empresas do nosso
sector? Na minha modesta opinião, a resolução do
problema tem a ver com o equilíbrio do trinómio.
Ambição + Foco + «Networking»
– Ambição – porque tendo muitas vezes as melhores
soluções, adoptamos uma atitude passiva e subserviente
face aos competidores internacionais, que urge mudar de
imediato;
– Foco – porque não podemos continuar a ter organizações
que pretendem abarcar todas as vertentes das TI, com a
pequena dimensão que, de uma forma geral, as nossas
empresas possuem. Mesmo algumas das empresas globais,
incomensuravelmente maiores e actuando em mercados de
grandes dimensões, já perceberam essa lição;
– «Networking» – porque surge como a única forma de
endereçar novos mercados, de partilhar os riscos
inerentes aos processos da inovação e de aceder a competências
actualizadas e altamente especializadas, que nenhum de nós
pode manter em todas as sub-áreas tecnológicas.
E não estou a inventar nada. Basta verificar como é que
funciona a indústria italiana da Moda, na região da
Lombardia, com uma miríade de empresas com poucas dezenas
de colaboradores, mas com uma forte especialização e
sentido de cooperação.
Como estou convencido de que estes princípios já estão
amplamente interiorizados pela nossa indústria,
restam-nos as variáveis externas.
Curiosamente, o ano até parece estar a arrancar bem!
Talvez despertados pelas dificuldades presentes, mais
aquelas que se avizinham, o certo é que, pela primeira
vez, em muitos anos, vejo a indústria a mexer-se desde o
momento “zero”, focada nos clientes, animada e
comentando que “há muitas oportunidades” e que
esperam fazer um bom 1º trimestre.
Mesmo na Administração Pública, o número de concursos
públicos recentemente lançados tem vindo a registar uma
inusitada e saudável actividade.
Naturalmente, a actual obsolescência dos Sistemas de
Informação de muitas organizações, ditada por anos
consecutivos de baixo investimento, não é nada alheia a
esta potencial abertura no mercado.
Então de onde podem surgir as dificuldades?
Apesar dos discursos dos dois principais partidos
candidatos a governar serem muito coincidentes em termos
da importância das Tecnologias de Informação, creio que
as dificuldades poderão vir da execução no período pós-eleitoral.
E quanto a isto sejamos perfeitamente claros:
Apenas dois cenários se apresentam:
a) Ou o Governo saído das eleições percebe claramente
que não pode parar as diversas iniciativas mobilizadoras
da sociedade do conhecimento e da inovação tecnológica,
naturalmente introduzindo melhorias pontuais, mas sempre
com a perspectiva de que o importante é potenciar e
acelerar os principais investimentos em TI agora suspensos
e não descurar que há uma indústria nacional a
proteger.
b) Ou o futuro Governo resolve pôr tudo em causa,
suspende e reformula na íntegra, criando um impasse no
sector semelhante ao que ocorreu no início de 2002, com a
substituição quase simultânea da administração pública
local e central.
Como somos todos
inteligentes, estou convicto de que só o 1º cenário se
pode verificar, pelo que teremos pela frente um bom ano
para a indústria de Tecnologias de Informação
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