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Jaime Lacerda, diz que não tem a certeza de haver
determinação política de pôr o crescimento económico
no topo das prioridades, por parte de nenhum dos partidos.
Mesmo assim, defende, em entrevista ao Fórum Empresarial,
a existência de um ‘filtro da competitividade’, que
permita avaliar se as medidas tomadas ajudam ou não a
aumentar a competitividade.
O vice-presidente do Fórum para a Competitividade afirma
ainda que “a primeira coisa que os empresários
necessitam é de confiança, é o restabelecimento da
confiança. E a confiança tem por base propostas claras,
prioridades claras”.
Fórum
Empresarial – Pensa que este ano será o ano da transição
para a retoma? O que devem as empresas fazer para aumentar
a produtividade e a competitividade da economia nacional?
Jaime
Lacerda – Portugal está em condições de melhorar o seu produto
potencial e essa melhoria depende essencialmente de dois
factores: do factor produtividade e do factor trabalho.
Depende da economia no seu conjunto – o Estado e as
empresas – conseguirem aumentar a sua produtividade e de
os agentes económicos – empresários, trabalhadores –
estarem ou não disponíveis para trabalhar mais.
É da conjugação destes dois factores – produtividade
e horas de trabalho – que pode resultar um aumento do
crescimento potencial, não há milagres em economia.
A questão da produtividade é muito difícil de alterar
de um dia para outro, por isso a sua questão levaria a
perguntar se no ano 2005 as pessoas estão dispostas a
trabalhar mais. E trabalhar mais, por exemplo, pode ser
haver disponibilidade para deixar de haver as ‘pontes’
que há… haver capacidade política para contrariar as
corporações, para, por exemplo, todos os feriados
passarem a ser gozados à segunda ou sexta-feira. Se há
coragem política para alterar o Código do Trabalho para
sancionar mais eficazmente o absentismo. Ou se há
capacidade para rever a legislação do trabalho para
aumentar a adaptabilidade dos horários de trabalho.
F.E.
– Mas isso são tudo projectos polémicos e que irão
demorar muito a serem resolvidos…
J.L.
–
A questão está em saber se é possível, no curto prazo,
estabelecer formas de organização do trabalho que sejam
mais eficientes. É isso que pode mudar alguma coisa no
curto prazo.
Porque os factores que condicionam a produtividade são
factores estruturantes, a nível da educação, do sistema
de investigação, de inovação, das infra-estruturas,
que são factores de evolução continuada, que não
permitem estabelecer uma diferença no curto prazo.
Ainda que houvesse uma determinação política de pôr o
crescimento económico no topo das prioridades, que eu não
tenho a certeza que haja… por parte de nenhum dos
partidos. Todas as pessoas falam nisso mas, na realidade não
assumem que não há prioridades, o que há é prioridade!
Porque, quando há muitas prioridades é a mesma coisa que
não haver prioridade nenhuma.
F.E.
– E qual pensa que devia ser a prioridade? Na óptica de
ajudar as empresas a conseguirem aumentar a produtividade
e o crescimento.
J.L.
–
Se quisermos ter uma influência activa no curto prazo, a
primeira coisa que os empresários necessitam é de
confiança, é o restabelecimento da confiança. E a
confiança tem por base propostas claras, prioridades
claras.
E aquilo que melhor poderia influenciar positivamente a
curto prazo, seria a mudança de um clima, que hoje em dia
é um clima de dúvida de grande incerteza e indefinição,
no campo das prioridades, para uma situação em que os
empresários vissem reconhecido que há que mudar um
conjunto de situações. E essas situações são de tanta
ordem que, aquilo que parece mais adequado é que haja uma
espécie de um ‘filtro da competitividade’. Um filtro
que faça com que, antes de ser tomada seja que medida
for, pelo Governo, seja feita uma avaliação do que é
que essa medida representa para a competitividade do país.
E esse filtro aplica-se não só ao plano económico,
financeiro, fiscal mas a toda a economia.
Dou-lhe um exemplo muito simples, no programa do CDS/PP dá-se
prioridade à implementação de medidas de ordem
ambiental e essa prioridade pode ser, em muitos casos,
conflituante com o investimento, criação de empresas,
com o desenvolvimento regional, porque, infelizmente uma
grande parte da preservação ambiental, passa pelo
imobilismo, por manter tudo como está, por não fazer
nada. Mas infelizmente as pessoas não comem ambiente, não
melhoram o seu nível de vida só porque respiram ar puro,
as pessoas querem mais do que isso. A dificuldade não é
manter as coisas como eram há 500 anos, a dificuldade está
em compatibilizar um ambiente razoável com uma qualidade
de vida, noutros aspectos, designadamente no aspecto económico-financeiro,
que as populações exigem.
Existe sempre um factor de risco no progresso económico
e, das duas uma, ou a prioridade é o crescimento ou a
prioridade é manter tudo como está, não há é duas
prioridades ao mesmo tempo.
Portanto, esta capacidade para definir prioridades está
na base da confiança, parece-nos absolutamente essencial,
e isso está na base da confiança, do crescimento do
investimento, que eu penso que é, por onde o país poderá
ter algum crescimento.
Senão veja, um crescimento económico baseado no consumo
é um crescimento perverso para Portugal, porque origina,
de imediato, problemas na nossa Balança de Transacções.
Um progresso baseado no consumo público é contrário ao
que está em causa, neste momento que é, reduzir o
Estado. Um crescimento baseado no investimento público,
tem o mesmo resultado. Por isso, um crescimento baseado no
investimento privado, é o que se pode desejar.
Para haver crescimento do investimento privado, tem de
haver uma alteração completa nas regras da relação
entre o estado e os privados nos mais diversos aspectos, a
começar pela confiança.
Relação
entre investimento privado e público é de 5 para 1
F.E.
– Portanto, não se espere que o Estado vá estimular o
crescimento através de investimento público?
J.L.
–
Qualquer crescimento do investimento público, do ponto de
vista estatístico, tem sempre uma representação muito
inferior à do investimento privado. É preciso não nos
esquecermos que a ano após ano, em média, relação
entre investimento privado e público é de 5 para 1, em média.
Portanto, se se conseguir aumentar 10% no investimento
privado o efeito é um, se aumentarmos 10% no investimento
público, o efeito é outro.
O problema resolve-se através de investimento privado,
nacional ou estrangeiro e para isso há que criar condições
e elas não estão criadas. Este Orçamento de Estado, que
acabou por ser aprovado à pressa e promulgado pelo Sr.
Presidente da República, é precisamente o contrário do
que seria um OE favorável ao investimento privado.
F.E.
– A descida do IRC seria uma medida favorável ao
investimento privado?
J.L.
–
É uma boa questão, porque é bom recapitular que o
programa eleitoral do PSD em 2002, previa a baixa da taxa
de IRC para 20% em 2003…
A entrada em vigor da redução da taxa de IRC foi adiada
para 2004 e não foi para 20%, foi para 25%.
Mais tarde, o Sr. ministro das Finanças, Bagão Félix,
numa entrevista à RTP veio dizer que a taxa de IRC já
tinha descido para 25% e que, essa descida até poderia
ser excessiva e que não fazia a mínima intenção de
reduzir mais a taxa de IRC. E isso, sem sequer se dar ao
trabalho de apresentar uma justificação relativamente àquilo
que estava no programa eleitoral do PSD…
F.E.
– Ou então explicar porquê?
J.L.
–
Mas a justificação teria de ser muito bem dada, porque não
acredito que quem elaborou o programa tivesse inscrito
essa descida do IRC de ânimo leve e, com isso, tivesse
criado às empresas um conjunto de expectativas, nas quais
porventura se basearam algumas decisões, e depois venha
dizer que afinal não é bem assim, as coisas não se
passaram como o previsto, com a maior das naturalidades e
desfaçatez.
F.E.
– Existem estudos sobre quanto é que as empresas
‘perderam’ com esta decisão do Governo de voltar atrás
e só descer o IRC para 25 (e não 20%)?
J.L.
–
Não, que eu saiba não existe esse estudo. Mas, posso
dizer-lhe que a questão do IRC não se esgota nas taxas e
tem sido muito mal tratada por parte dos decisores e não
só, ainda recentemente num debate televisivo, tive uma
troca de palavras mais acesa com Carvalho da Silva, que
estava a dizer que a evasão e fraude fiscal era muito
grande ao nível da empresas. Eu não quero discutir a
evasão fiscal mas ao nível das empresas, aquilo que se
verifica desde que o imposto foi criado em 1989, é que,
em média, o IRC cresceu acima do que cresceu o PIB.
F.E.
Mas há fraude e evasão fiscal e ela tem de ser
combatida…
J.L.
–
Isso, ninguém tem dúvidas! Mas também convém que as
regras alinhem pelas dos nossos parceiros da União
Europeia. Senão corremos o risco de os aforradores
portugueses deslocarem para outros países os seus aforros
e isso também seria mau. Por isso, tem que haver bom
senso nas regras que são introduzidas.
F.E.
– Fala-se muito em falta de competitividade da economia
nacional e compara-se com outros países da UE,
mas, por vezes esquece-se de referir que as condições
de base, por exemplo a taxa de IRC, muitas vezes não é
igual… É possível competir assim?
J.L.
–
Eu penso que a questão da taxa de IRC é um dos factores,
há outros, por exemplo, atrasos
na celebração de acordos de dupla tributação.
Soube que o acordo de dupla tributação com, a África do
Sul está pronto para ser assinado há seis meses e ainda
não foi porque ainda não surgiu oportunidade de algum órgão
de soberania ir à África do Sul e fazer um
‘brilharete’ assinando o acordo. Isso significa que há
muitas empresas que estão a ser prejudicadas… dá para
termos uma ideia de como são tratados os interesses
empresariais.
Além disso, há o
retirar de benefícios fiscais às empresas incluído
neste Orçamento e que, em muitos dos casos vão ficar
reduzidos a 60% do que eram. O Estado acaba por retirar
assim o que tinha ‘dado’ com a descida do IRC para
25%. Por isso, nós dissemos que votaríamos contra este
Orçamento de Estado.
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