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Apesar da ligeira recuperação observada em 2004, a
actividade económica em Portugal deverá manter-se, em
2005, condicionada por um conjunto de factores que vêm
restringindo a procura interna nos últimos anos – em
particular, os elevados níveis de endividamento das famílias
e a necessidade de contenção da despesa pública.
Em todo o caso, o crescimento do PIB deverá registar,
este ano, uma subida moderada, de 1.1% (registo esperado
em 2004) para um valor entre 1.5% e 2%. Na base desta
evolução, espera-se que a procura externa líquida
retome um contributo positivo para o crescimento, mesmo
que uma pequena desaceleração das exportações seja
provável (em função de um comportamento menos positivo
da economia da Zona Euro). De facto, as importações
deverão registar, em 2005, um crescimento mais moderado
do que aquele observado no ano passado.
Em 2004, as importações registaram um comportamento
“anormal”, dado que resultaram, numa parte
significativa, das circunstâncias excepcionais criadas
pela realização quer do festival de música Rock in Rio
Lisboa, quer, sobretudo, do campeonato da Europa de
futebol, o Euro 2004.
Por sua vez, o consumo privado e o investimento deverão
manter ritmos de crescimento próximos dos observados em
2004. No primeiro caso, e apesar de todas as restrições
que ainda afectam este agregado, o consumo das famílias
será suportado por uma pequena aceleração do rendimento
disponível em termos reais. De facto, os benefícios da
ligeira retoma iniciada no final de 2003 deverão começar
a sentir-se no mercado de trabalho, com o emprego a
acompanhar o crescimento da população activa. Assim,
depois da subida observada nos últimos anos, a taxa de
desemprego (em termos médios anuais) deverá estabilizar
em 2005, em torno de 6.5%, esperando-se que desça
ligeiramente em 2006.
Por outro lado, o rendimento disponível deverá também
beneficiar da ligeira descida do IRS, que irá favorecer,
sobretudo, as classes de rendimento mais baixas e com
maior propensão ao consumo. Refira-se, ainda, o fim do
congelamento dos salários da função pública, que
contribuirá para uma pequena aceleração do rendimento
proveniente dos salários.
Este cenário de ligeira melhoria do ambiente em 2005 não
deve fazer esquecer um facto essencial: mesmo um
crescimento do PIB próximo de 2% é insuficiente para a
necessária convergência da economia portuguesa face aos
padrões de vida médios europeus.
Por outro lado, os riscos estão, neste momento,
enviesados no sentido de um crescimento mais moderado que
o previsto nos próximos meses. O clima de instabilidade
política e a incerteza quanto à política económica a
ser seguida pelo Governo após as eleições (com a
possibilidade de um Orçamento Rectificativo em aberto)
podem gerar o adiamento de decisões de consumo e
investimento. Em segundo lugar, a poupança das famílias
poderá subir mais do que o esperado, por motivos de
precaução, especialmente num ano em que se poderá
perspectivar uma pequena subida das taxas de juro de referência
por parte do Banco Central Europeu.
Finalmente, a evolução do preço do petróleo é um
factor de incerteza adicional, podendo continuar a
condicionar negativamente a actividade económica europeia
(no entanto, no caso de ter que se escolher um risco
positivo para a actividade económica no próximo ano,
esse poderia ser o de uma evolução mais favorável do
preço do crude relativamente ao esperado).
Perante este cenário, torna-se evidente que o grande
desafio para a economia portuguesa em 2005,
independentemente do resultado das eleições gerais do próximo
domingo, será o de prosseguir um trabalho de criação de
condições propícias a uma aceleração sustentada da
produtividade, a uma maior competitividade das exportações
e, em geral, a um ambiente mais “amigo” do
investimento.
Como parte deste
trabalho, é essencial aprofundar, tanto quanto possível,
a reforma do Estado, de forma a libertar recursos para
fins mais produtivos e a permitir uma acção mais eficaz
das políticas públicas nos domínios onde o Estado deve
estar presente. Duas ideias devem, no entanto, acompanhar
estes desafios: em primeiro lugar, a de que este é um
trabalho que demorará tempo a dar frutos, não podendo
isso servir de argumento para quaisquer desvios face ao
caminho necessário; em segundo lugar, a de que esta é
uma tarefa que depende não apenas, nem essencialmente, do
Estado. É necessário que cada pessoa, na sua actividade,
faça o possível para acrescentar valor, qualidade e exigência
ao seu trabalho.
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