GRANDES DESAFIOS 

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OPINIÃO

 
 

Carlos Almeida Andrade,

Chief Economist e Director do ‘Research Económico’ do Espírito Santo Research

 

Desafio é aumentar produtividade e competitividade

O grande desafio para a economia portuguesa em 2005, independentemente do resultado das eleições de domingo, será o de prosseguir um trabalho de criação de condições propícias a uma aceleração sustentada da produtividade, e a uma maior competitividade das exportações

Apesar da ligeira recuperação observada em 2004, a actividade económica em Portugal deverá manter-se, em 2005, condicionada por um conjunto de factores que vêm restringindo a procura interna nos últimos anos – em particular, os elevados níveis de endividamento das famílias e a necessidade de contenção da despesa pública.

Em todo o caso, o crescimento do PIB deverá registar, este ano, uma subida moderada, de 1.1% (registo esperado em 2004) para um valor entre 1.5% e 2%. Na base desta evolução, espera-se que a procura externa líquida retome um contributo positivo para o crescimento, mesmo que uma pequena desaceleração das exportações seja provável (em função de um comportamento menos positivo da economia da Zona Euro). De facto, as importações deverão registar, em 2005, um crescimento mais moderado do que aquele observado no ano passado.

Em 2004, as importações registaram um comportamento “anormal”, dado que resultaram, numa parte significativa, das circunstâncias excepcionais criadas pela realização quer do festival de música Rock in Rio Lisboa, quer, sobretudo, do campeonato da Europa de futebol, o Euro 2004.

Por sua vez, o consumo privado e o investimento deverão manter ritmos de crescimento próximos dos observados em 2004. No primeiro caso, e apesar de todas as restrições que ainda afectam este agregado, o consumo das famílias será suportado por uma pequena aceleração do rendimento disponível em termos reais. De facto, os benefícios da ligeira retoma iniciada no final de 2003 deverão começar a sentir-se no mercado de trabalho, com o emprego a acompanhar o crescimento da população activa. Assim, depois da subida observada nos últimos anos, a taxa de desemprego (em termos médios anuais) deverá estabilizar em 2005, em torno de 6.5%, esperando-se que desça ligeiramente em 2006.

Por outro lado, o rendimento disponível deverá também beneficiar da ligeira descida do IRS, que irá favorecer, sobretudo, as classes de rendimento mais baixas e com maior propensão ao consumo. Refira-se, ainda, o fim do congelamento dos salários da função pública, que contribuirá para uma pequena aceleração do rendimento proveniente dos salários.

Este cenário de ligeira melhoria do ambiente em 2005 não deve fazer esquecer um facto essencial: mesmo um crescimento do PIB próximo de 2% é insuficiente para a necessária convergência da economia portuguesa face aos padrões de vida médios europeus.

Por outro lado, os riscos estão, neste momento, enviesados no sentido de um crescimento mais moderado que o previsto nos próximos meses. O clima de instabilidade política e a incerteza quanto à política económica a ser seguida pelo Governo após as eleições (com a possibilidade de um Orçamento Rectificativo em aberto) podem gerar o adiamento de decisões de consumo e investimento. Em segundo lugar, a poupança das famílias poderá subir mais do que o esperado, por motivos de precaução, especialmente num ano em que se poderá perspectivar uma pequena subida das taxas de juro de referência por parte do Banco Central Europeu.

Finalmente, a evolução do preço do petróleo é um factor de incerteza adicional, podendo continuar a condicionar negativamente a actividade económica europeia (no entanto, no caso de ter que se escolher um risco positivo para a actividade económica no próximo ano, esse poderia ser o de uma evolução mais favorável do preço do crude relativamente ao esperado).

Perante este cenário, torna-se evidente que o grande desafio para a economia portuguesa em 2005, independentemente do resultado das eleições gerais do próximo domingo, será o de prosseguir um trabalho de criação de condições propícias a uma aceleração sustentada da produtividade, a uma maior competitividade das exportações e, em geral, a um ambiente mais “amigo” do investimento.

Como parte deste trabalho, é essencial aprofundar, tanto quanto possível, a reforma do Estado, de forma a libertar recursos para fins mais produtivos e a permitir uma acção mais eficaz das políticas públicas nos domínios onde o Estado deve estar presente. Duas ideias devem, no entanto, acompanhar estes desafios: em primeiro lugar, a de que este é um trabalho que demorará tempo a dar frutos, não podendo isso servir de argumento para quaisquer desvios face ao caminho necessário; em segundo lugar, a de que esta é uma tarefa que depende não apenas, nem essencialmente, do Estado. É necessário que cada pessoa, na sua actividade, faça o possível para acrescentar valor, qualidade e exigência ao seu trabalho.

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