INVESTIGAÇÃO & DESENVOLVIMENTO 

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OPINIÃO

 
 

Pedro Silva Reis,

(INIAP/SC)

 

Sociedade, Tecnologia e Estado: dinâmicas da investigação agrária

Na Investigação Agrária a tradição já não é o que era. Face, felizmente, à grande capacidade de desenvolvimento da agricultura na satisfação das necessidades básicas da alimentação, a sociedade actual tem crescentes necessidades e exigências ao nível da qualidade e segurança dos produtos alimentares, da protecção do ambiente, da conservação dos recursos naturais e inclusive do bem-estar animal. Por outro lado, é indiscutível assegurar uma vida condigna à população residente nos meios rurais mais desfavorecidos ao mesmo tempo que os urbanos valorizam, e querem usufruir, as amenidades do extenso espaço rural.

É no quadro destas dinâmicas que o Estado, nomeadamente através dos laboratórios que tutela, tem de garantir um conjunto de funções e de capacidades científicas que possam responder atempadamente e de forma eficaz às novas exigências da sociedade, constituindo-se como centros de excelência que contribuam para a definição e implementação de políticas sectoriais assim como para o fomento da economia portuguesa com coesão social. Na sequência das recomendações emanadas da avaliação internacional, realizada na década de noventa, foi aprovado o Programa de Apoio à Reforma dos Laboratórios do Estado (PARLE) com os seguintes objectivos: orientação das actividades para missões específicas de interesse público; rejuvenescimento dos recursos humanos de investigação; projectos geridos por objectivos, com autonomia e flexibilidade acrescida na gestão das equipas, sob a liderança de um investigador responsável. O Instituto Nacional de Investigação Agrária e das Pescas (INIAP) tem uma participação marcante com seis projectos1 , cujos trabalhos estão na fase conclusiva, e que se desenrolam em torno de dois eixos: a) qualidade, segurança alimentar e protecção do ambiente; b) gestão dos sistemas agrários e protecção do ambiente. Nesta edição são expostos os dois projectos desenvolvidos no âmbito do primeiro eixo, um deles em torno do valioso património vitivinícola português e o outro orientado para a produção hortofrutícola, nomeadamente tomate, pimento, morango, pêra e maçã. No segundo eixo foram abordados os sistemas agrários policulturais de montanha e vale do Norte, - projecto também incluído nesta edição - o pinhal bravo (maior povoamento florestal), o sistema extensivo agro-silvo-pastoril montado (com os seus sobreiros e azinheiras) e o olival (cultura prioritária). O objectivo do rejuvenescimento consubstanciou-se através do elevado número de bolseiros – mais de quarenta e cinco dos quais trinta eram licenciados, mestres ou doutorados – que absorveram metade do apoio financeiro concedido pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT). A organização, gestão e liderança também procurou pautar-se por uma descentralização, flexibilidade e responsabilização. Assim, foram formadas equipas multidisciplinares que abrangem mais do que uma Unidade Operativa e que são lideradas por um investigador que assume não só a coordenação científica mas também a responsabilidade pelo cumprimento das tarefas previstas assim como a gestão dos recursos afectos ao projecto e a eficiente aplicação dos fundos consignados.

Os investimentos em I&D contribuem indiscutivelmente para a produção de riqueza nacional e bem-estar social. No entanto, o conhecimento científico tem de ser assimilado pelo desenvolvimento tecnológico e difundido aos potenciais utilizadores. Nesta lógica de acção, está a decorrer um programa de financiamento público de actividades de desenvolvimento experimental e demonstração no sector agro-rural inserido no Programa AGRO (AGRO 8.1). O INIAP, no cumprimento da sua missão, empenhou-se profundamente através da sua participação em 108 projectos em parcerias com 54 instituições públicas e 130 privadas. Os dois projectos apresentados nesta edição são ilustrativos das parcerias formadas entre o INIAP e entidades privadas – num caso a associação IACA e no outro a empresa Fertiprado, Lda. Nos projectos liderados por investigadores do INIAP houve uma associação privilegiada com as Direcções Regionais de Agricultura e também uma presença marcante das empresas privadas, cooperativas e associações sem descurar as ligações às instituições universitárias e às escolas superiores agrárias. As temáticas abordadas foram muito diversas – agronomia, pecuária e floresta, desde os recursos solo, água e material genético até à valorização do produto final – perspectivando-se uma grande dispersão regional do impacte potencial dos resultados sobre os principais sistemas agrários na perspectiva da conservação dos recursos naturais, da protecção do ambiente e da qualidade e segurança alimentar.

Procuramos assim cumprir a nossa missão face às actuais exigências da sociedade, procurando ser a referência de competências específicas e dispondo de infra-estruturas especializadas ao serviço do Governo e do sector privado.

Equipa cientifica do projecto B do PARLE ,

(INIAP/EAN)

 

Qualidade e segurança alimentar em hortofruticultura: da quinta ao prato

 

Hoje em dia as populações estão cada vez mais conscientes da necessidade de consumirem produtos de qualidade e seguros. A utilização desregrada de pesticidas poluindo o solo e os aquíferos, e o uso de químicos com efeitos nefastos, são cada vez mais motivo de preocupação. Tendo em conta estes aspectos, foi executado o Projecto "Valorização da qualidade e promoção da segurança alimentar e da preservação do ambiente na produção hortofrutícola"(1), envolvendo equipas de investigadores e técnicos da Estação Agronómica Nacional, do Laboratório Químico Agrícola Rebelo da Silva e da Estação Nacional de Fruticultura Vieira Natividade, unidades operativas do INIAP, e tendo como objectivos principais o estudo e selecção de práticas agrícolas que preservem a qualidade e a segurança alimentar de  produtos agrícolas de interesse económico, sem degradarem o ambiente.

Trata-se de um Projecto multidisciplinar, com várias linhas de trabalho, em áreas tão diversas como a fisiologia vegetal, a química analítica e a protecção integrada.

Embora visando especialmente as culturas do tomate, da pêra e da maçã, em zonas onde essas culturas têm grande implantação, como é o caso do Ribatejo e Oeste, os estudos realizados têm também aplicação a outras culturas hortofrutícolas como o pimento e o morango.

 

Avaliação Agronómica de Tomate para Indústria em Produção Integrada

Uma das linhas de trabalho teve como objectivo a avaliação da produtividade e qualidade de tomate (Lycopersicon esculentum Mill.) para indústria. Para isso foram testados, durante dois anos, cinco estados de maturação dos frutos, no momento da suspensão da rega, em dois tipos de solo (arenoso e franco-argiloso), em produção integrada, com base em características agronómicas e tecnológicas.

Conjugando os resultados da produção com os da qualidade, concluiu-se que em solo arenoso a suspensão da rega deverá ser efectuada a 90% de frutos maduros, enquanto que, em solo franco-argiloso, deverá ser a 30%. Esta última situação é bastante favorável, pois permite a diminuição do ciclo cultural, a antecipação da época de colheita e economia no consumo de água de rega, factor considerado limitante.

Os teores de licopeno (aditivo alimentar multifuncional) nos frutos foram superiores no solo franco argiloso e directamente proporcionais à percentagem de frutos maduros, no momento da suspensão da rega.

 

Fisiologia

Portugal é um dos principais exportadores de produtos derivados do tomate, cultura predominantemente regada. Sabe-se no entanto que a plena satisfação dos requisitos hídricos da planta estimula o desenvolvimento de caules e folhas, reduzindo a concentração de açúcares e ácidos orgânicos nos frutos, principais responsáveis pelo sabor. Há mais de uma década e por determinação da União Europeia, o preço pago aos produtores de tomate para indústria depende do teor destes compostos, o que tem levado o agricultor ao desafio de melhorar a qualidade sem reduzir a produção.

Isto pode-se conseguir optimizando a quantidade de água e escolhendo as fases fisiológicas determinantes para a aplicar. Foram feitos estudos de monitorização do estado hídrico de tomateiros para a indústria em diferentes períodos do seu desenvolvimento, do grau de afectação da fotossíntese, processo primário responsável pela produção, bem como do comportamento dos estomas que são "portas" de entrada do dióxido de carbono e saída de vapor de água nas folhas. Os pigmentos foliares, captadores da energia solar, foram também objecto de estudo pela sua importância fundamental na produtividade fotossintética. A principal conclusão foi que nos solos argilosos, com grande capacidade de retenção da água, a suspensão da rega quando 45% dos frutos se encontrem maduros não altera os indicadores fisiológicos, não prejudicando a  produção e a qualidade. Nos solos arenosos, o mesmo procedimento melhorou os indicadores fisiológicos e, consequentemente, a qualidade, embora reduzisse um pouco a produção. Cabe ao agricultor decidir se investir na qualidade preterindo a produção ou privilegiar esta.

 

Fertilização mineral

O azoto, o fósforo e o potássio são os nutrientes requeridos em maiores quantidades para o crescimento das plantas, sendo o azoto o que mais frequentemente limita o crescimento vegetal. Manter um balanço equilibrado entre os nutrientes adicionados ao solo e removidos pela planta é essencial para uma gestão correcta dos recursos, limitando os problemas de poluição ambiental, em particular os associados ao azoto.

No solo, a maior parte do azoto encontra-se na forma orgânica, só estando disponível para as plantas após mineralização e nitrificação (conversão do amónio a nitrato), pelo que o teor de nitratos no solo é muito importante para as plantas e para o ambiente. Contudo, o excesso pode conduzir a impactes ambientais negativos. Por este motivo, a transposição da legislação ambiental europeia impõe um teor máximo de nitratos na água potável. Supõe-se que a saúde humana possa ser negativamente afectada  por ingestão excessiva de nitratos que parecem estar associados ao aparecimento de cancro no aparelho digestivo e à formação de metahemoglobina no sangue devido a redução de transporte de oxigénio. A UE estabeleceu também máximos para algumas culturas hortícolas.

 A seguir ao azoto, o fósforo é o elemento que mais frequentemente limita a produção vegetal, pois o seu teor nos sistemas naturais é normalmente baixo, enquanto o potássio é particularmente importante na formação dos frutos, em especial na cultura do tomate. Para além destes nutrientes também o cálcio, o magnésio e o sódio desempenham funções importantes no desenvolvimento vegetativo das plantas. Procedeu-se à monitorização dos nutrientes atrás citados, em campos de produção de tomate para indústria, e estudou-se a relação existente entre os níveis encontrados nas plantas submetidas a cortes de rega  (30%, 45%, 60%, 75% e 90% de frutos maduros no momento da suspensão da rega).

De um modo geral, os valores de nutrientes nos frutos eram  normais para a cultura de tomate, não se tendo verificado acumulação de nitratos acima dos limites máximos admissíveis.

 

Protecção integrada da cultura do tomate de indústria

Os organismos que contribuem para a limitação dos níveis populacionais dos inimigos das culturas são denominados auxiliares e podem ocorrer naturalmente na cultura, sendo por isso, também conhecidos como inimigos naturais. A metodologia de protecção das plantas denominada Protecção Integrada assim como, a protecção em  Agricultura Biológica, entre outras técnicas, procuram potenciar a capacidade de utilização destes organismos, os quais podem também ser utilizados em tratamento biológico, através de largadas, de modo a fomentar o aumento das populações de auxiliares na área das pragas a tratar

Com o objectivo de desenvolver medidas de protecção integrada na cultura de tomate de industria com vista ao aumento da segurança alimentar e da protecção do ambiente reduzindo a aplicação de pesticidas, foram estudadas, no INIAP-Estação Agronómica Nacional, além da problemática das pragas e doenças, a fauna portuguesa de algumas famílias de insectos e ácaros auxiliares o que deu origem ao conhecimento da importância destes organismos nos nossos ecossistemas e à existência de Colecções que documentam a sua biodiversidade.

Na área das pragas de afídeos em culturas hortícolas estão realizados estudos nas culturas de tomateiro e também de meloeiro, pimenteiro e morangueiro. No âmbito deste projecto ficou a conhecer-se para a cultura de tomate de indústria a dinâmica populacional das pragas de afídeos e dos seus inimigos naturais para a região do Ribatejo o que constitui uma ferramenta fundamental para avaliar a indispensabilidade de intervenção no ecossistema através de modelos de desenvolvimento dos inimigos das culturas e da ponderação dos factores que os condicionam.

Os trabalhos desenvolvidos relativamente à lagarta do tomate, praga que causa grandes prejuízos na cultura e que é responsável por um elevado número de tratamentos pesticidas, têm como objectivo disponibilizar, à produção, técnicas alternativas aos pesticidas tóxicos, de forma a, por um lado garantir a protecção da cultura e por outro melhorar a qualidade do produto final. Os resultados de que se dispõe permitem definir um modelo de protecção baseado na estimativa do risco e consequente melhor posicionamento dos tratamentos, com a substituição total ou parcial dos insecticidas químicos tradicionalmente utilizados  por meios biológicos (Bacillus thurigiensis) ou outros meios químicos com menor impacto, quer para o ambiente quer para a saúde publica em geral.

 

A fruta que comemos: Recuperar a Confiança e o Sabor de Antigamente

Na sociedade actual, o consumo de frutas e legumes, como garante da boa forma física e da saúde dos consumidores, tem vindo a ser fortemente estimulado. Apesar disso, nem sempre os produtos disponíveis no mercado são atraentes, seguros e de qualidade sensorial e nutricional garantida.

Conscientes desta realidade os investigadores, em sintonia com as aspirações do sector agrícola e empresarial, têm procurado trocar conhecimentos e experiências que permitam fornecer o mercado com frutos cada vez mais saborosos e seguros para a saúde.

A definição de técnicas de produção respeitadoras do ambiente e da saúde pública, a selecção de clones com melhor aptidão agronómica produzindo frutos de qualidade elevada, assim como a fixação das datas de colheita de pêra 'Rocha' e maçã 'Bravo de Esmolfe' em adequado estado de maturação, foram metas já alcançadas no âmbito deste Projecto. O avanço das tecnologias de preservação dos produtos vegetais inteiros tem, de igual modo, estimulado a intervenção dos cientistas.

No que diz respeito aos prejuízos após colheita, quer de origem patogénica quer fisiológicos, têm sido objecto de avanços consideráveis no conhecimento dos agentes causais (microbiológicos ou ambientais) e dos seus modos de acção. Esta situação tem conduzido à definição de estratégias alternativas ao uso de pesticidas de síntese para controlo das patologias, sem deixarem resíduos, nomeadamente com recurso à luta biológica e a produtos naturais extraídos de plantas com propriedades antisépticas, de que é exemplo o orégão. No caso das fisiopatias, tem sido possível proceder a ajustadas intervenções, após colheita, que atenuam os desequilíbrios nutricionais ou de condicionamento que as originam.

 

Estudos de fertilização e de nutrição de pomóideas nas regiões do Oeste, Beira Litoral e Beira Interior.

Os estudos efectuados nesta linha de trabalho,  tiveram como objectivo ampliar e aprofundar os conhecimentos sobre o estado de nutrição mineral de variedades de macieiras e pereiras, com expressão relevante na área frutícola regional ou nacional. Tais conhecimentos permitem melhorar as técnicas culturais, entre as quais se contam a fertilização e a rega, pois a sua inadequação pode conduzir a sérios problemas de carácter ambiental, nomeadamente à poluição da água com nitratos e a produções de má qualidade. Dada a diversidade de factores que interfere na disponibilidade e absorção dos nutrientes pelas árvores, o seu estado de nutrição deve ser avaliado através da análise foliar, complementada com outros meios de diagnóstico. Daí a necessidade de estabelecer normas de referência para interpretação dos resultados analíticos. Tal foi alcançado com o estabelecimento dos intervalos de suficiência de macronutrientes (azoto, fósforo, potássio, cálcio e magnésio) e de boro a serem utilizados como valores de referência na interpretação dos resultados da análise foliar, para diagnóstico do estado de nutrição de pomares de macieira das cultivares Royal Gala, Lysgolden e Bravo de Esmolfe e a preparação de recomendações de fertilização.

Noutra vertente, em pomares jovens de pereira Rocha, estudou-se o efeito da época de aplicação das mesmas quantidades de azoto e de potássio, através da água de rega. Das diferentes combinações estudadas, o tratamento que seguiu as normas de produção integrada de pomóideas (1/3 ao abrolhamento, 1/3 a seguir ao vingamento e 1/3 imediatamente antes dos frutos atingirem os 15 mm de diâmetro equatorial), o correspondente à aplicação do potássio de acordo com as referidas normas e o de azoto aplicado semanalmente até à colheita, foram os mais favoráveis.

 

Análises Químicas na Avaliação de Qualidade e Segurança

O tomate, a pêra e a maçã contêm várias centenas de compostos voláteis, mas só uma parte é responsável pelo aroma dos frutos, contribuindo assim para a sua qualidade. Para caracterizar os compostos voláteis do tomate para indústria, da pêra Rocha, da maçã Bravo de Esmolfe e da maçã Casanova utilizou-se Cromatografia em Fase Gasosa acoplada a Espectrometria de Massa que são técnicas de análise química adequadas para estes compostos. A comparação dos resultados obtidos permitiu estabelecer a composição volátil característica de cada tipo de fruto e salientar diferenças na concentração dos compostos de que resultam características organolépticas distintas.

Uma vez que os consumidores têm vindo a manifestar preocupações com a possibilidade de existirem resíduos de pesticidas nos alimentos em quantidades que possam afectar a sua saúde, fizeram-se  ensaios imunológicos simples e de aplicação fácil que permitiram analisar um elevado número de amostras em simultâneo e confirmar que os alimentos não contêm resíduos de pesticidas acima do que é permitido por lei.

Na análise de tomate para indústria foram pesquisados os pesticidas aplicados na cultura. Os resultados obtidos mostraram que as amostras de tomate colhidas em campos experimentais e de produção comercial não apresentavam resíduos desses pesticidas, podendo concluir-se que o tomate era adequado para  consumo.

 

David Crespo, João Paulo Carneiro, Pedro Rodrigues, Ana Barradas ,

Projecto financiado no âmbito da Acção Desenvolvimento Experimental & Demonstração do Programa AGRO

 

Pastagens biodiversas: uma alternativa sustentável para uso de terras marginais

 

A nova Política Agrícola Comum dá prioridade à produção de alimentos de qualidade em sistemas economicamente viáveis e respeitadores do ambiente (solo, água, ar, paisagem e biosfera). Por isso, urge repensar o uso da terra portuguesa de modo a desenvolver sistemas de produção sustentáveis. O caso das terras marginais merece especial atenção, pois ocupam mais de 2,5 milhões de ha, sujeitos ao abandono e à desertificação humana, mercê da perda continuada de competitividade das culturas aí praticadas. De facto, nos últimos 25 anos, operaram-se ali profundas mudanças: i) os cereais, sofreram uma redução de 50% na área cultivada (0,55 milhões ha/ano), a qual passou a ser ocupada por pasto natural permanente, por novas plantações florestais ou simplesmente abandonada, transformando-se frequentemente em pasto de chamas; ii) na fileira pecuária, os pequenos ruminantes sofreram uma redução de 29%, enquanto os bovinos aumentaram 15%, mas o país continua com um défice anual médio de 63 mil toneladas de carne de bovino e 10 mil toneladas de ovinos e caprinos, tudo no valor de cerca de 200 milhões/ano. Naquele período, a insuficiente produção pecuária viu a sua dependência de alimentos concentrados, quase todos importados, aumentar em 40%, custando hoje mais de 1400 milhões/ano.

Às pastagens permanentes semeadas, biodiversas e ricas em leguminosas, cabe um importante papel na reabilitação das terras marginais e da economia agrária nacional, pois o clima mediterrâneo, além de excelente para as leguminosas (capazes de fixar azoto gratuitamente, promover a produção e qualidade da erva, e recuperar a fertilidade dos solos), permite que a erva seja utilizada em pastoreio todo o ano, o que se traduz numa notável economia nos custos de produção e numa superior qualidade dos produtos animais. Com intuito de o demonstrar, foi lançado o Projecto Pastagens biodiversas ricas em leguminosas: uma alternativa sustentável para o uso de terras marginais1, através do qual produtores agro-pecuários com terras marginais, tomaram contacto com as vantagens daquelas pastagens semeadas, por comparação com as pastagens naturais. Assim, em cinco explorações agrícolas do Centro e Sul do país, procedeu-se à sementeira de pastagens biodiversas, com espécies e cultivares de leguminosas e gramíneas adaptadas às condições de solo e clima locais, fertilizadas e pastoreadas racionalmente, que foram comparadas com pastagens naturais, em cercas de 15 ha cada uma. As vantagens destas pastagens semeadas sobre as pastagens naturais foram claras, pois em média produziram mais 71% de erva e de muito melhor qualidade (18% mais digestibilidade, 108% mais proteína), o que permitiu aumentar o encabeçamento - número de animais suportados em pastoreio - de 0,46 para 1,21 CN/ha/ano. Nas pastagens mais produtivas registou-se ainda um incremento significativo na matéria orgânica do solo. Isto leva-nos a concluir que se aproveitarmos as terras marginais com pastagens deste tipo, será fácil: i) produzir, de modo sustentável, toda a carne de ruminantes que o país necessita e ainda exportar alguma para mercados exigentes em qualidade; ii) diminuir significativamnete o consumo de concentrados; iii) incrementar o rendimento das explorações, contribuindo para melhorar as condições de vida das populações rurais.

 

 

Ramalho Ribeiro,

Investigador Coordenador do INIAP

 

A produção animal é uma actividade segura

As Fábricas de Rações ao produzirem alimentos compostos e pré-misturas utilizam uma série de matérias-primas, aditivos, ingredientes etc. que poderão ser considerados eventuais produtos de risco para os animais e em última análise o homem.

Para controlo destas situações a Associação dos Industriais de Alimentos Compostos para Animais (IACA) criou e fez publicar um Código de Boas Práticas.

Este Código identifica áreas do circuito de fabrico nomeadamente recepção e armazenamento de matérias-primas, processos de fabrico, armazenamento de produtos acabados e expedição. Para cada um destes sectores são descritos procedimentos e rotinas de trabalho.

A IACA e a Estação Zootécnica Nacional (EZN) desenvolveram o Projecto Fabrico de alimentos para animais - implementação, acompanhamento e avaliação do código de boas práticas1  com o objectivo de avaliar até que ponto este Código estaria a ser implementado e em que medida é que se poderia, de forma pedagógica, contribuir para a sua efectiva aplicação de forma Universal e plena.

Voluntariamente aderiram cerca de 30 Empresas de todas as regiões do país às quais as equipes de Projecto fizeram uma primeira visita a fim de conhecer o nível de implementação do Código de Boas Práticas

Esta passa por três etapas:

1. Descrever todas as rotinas e procedimentos a executar nos diferentes pontos do circuito, apresentá-los e explicá-los aos funcionários envolvidos.

2. Montar um sistema de controlo a cada fase do processo para que haja a garantia de que os procedimentos estão a ser seguidos.

3. Registo deste controle em folhas próprias como prova de que o controle é realizado na data prevista e pela pessoa para isso indicada.

O projecto ainda está em execução mas já foi possível constatar que houve uma evolução significativa do 1º para o 2º ano e que já hoje grande parte das Fábricas se prepara para implementar a fase 2. Esperamos que até ao final esta evolução continue.

Paralelamente este projecto pretende ajudar as empresas a testar os seus sistemas de controlo de qualidade nomeadamente no que se refere às características das matérias-primas e dos produtos acabados.

Assim no 2º e 3º ano do Projecto e, aquando da visita às Fábricas, foram recolhidas amostras que depois de analisadas no Laboratório da EZN servirão para avaliar da existência de desvios entre os valores analíticos assim encontrados e aqueles que as Fábricas estavam a utilizar para construir as suas fórmulas e elaborar os seus produtos finais.

Este projecto tem uma finalidade eminentemente pedagógica para ajudar as empresas a integrarem-se numa realidade que garanta a segurança da cadeia alimentar na componente do circuito em que elas intervêm.

A EZN, ao estabelecer esta parceria com a IACA, presta um serviço que se enquadra nas suas prioridades e ambas as Instituições acreditam que no final do Projecto a situação nas fábricas estará melhor.

 

 

A.S. Curvelo-Garcia,

Investigador Coordenador do INIAP, Director da Estação Vitivinícola Nacional e Investigador Responsável do Projecto A do PARLE (FCT)

 

Valorização do património vitivinícola português pela qualidade, diversidade e segurança alimentar

 

O projecto Valorização do património vitivinícola português pela qualidade, diversidade e segurança alimentar dos seus produtos2 , foi realizado por duas Unidades Operativas de Ciência e Tecnologia do Instituto Nacional de Investigação Agrária e das Pescas: a Estação Vitivinícola Nacional e o Laboratório Quimico-Agrícola Rebelo da Silva, com a colaboração do IBET, de duas Universidades, de um Instituto Politécnico, de duas Direcções Regionais de Agricultura, de Comissões Vitivinícolas Regionais e de três empresas. Foi o projecto ainda complementado com outros (8 de financiamento nacional, 3 de cooperação internacional bilateral e 1 de financiamento europeu). Envolveu a participação directa de 17 Investigadores, 4 Técnicos Superiores e 10 Bolseiros de Investigação (4 dos quais, doutorados). Obedecendo à estratégia da FCT para uma reestruturação e rejuvenescimento dos Laboratórios de Estado, centrou-se numa fileira de importância estratégica para o desenvolvimento da agricultura portuguesa (o sector vitivinícola), baseou-se no desenvolvimento de competências já instaladas na instituição (impulsionando um acréscimo da competitividade científica, orientada para o interesse público), lançou as bases para um rejuvenescimento dos recursos humanos e implementou domínios científicos ou áreas de actuação com importância estratégica (aplicação da biologia molecular em diversas vertentes, segurança alimentar, ambiente).

O projecto, embora de fileira, teve em consideração aspectos ambientais que lhe são específicos (como a minimização do impacto ambiental de efluentes de instalações vinícolas ou a racionalização da fertilização da vinha e do uso de pesticidas). Contudo, visou essencialmente o desenvolvimento de acções orientadas para a valorização do património vitícola português, com especial incidência nos diferentes aspectos e factores, de ordem vitícola ou enológica, determinantes da qualidade dos vinhos e de outros produtos de origem vitícola (como o envelhecimento de aguardentes de qualidade e a produção de doces à base de excedentes da produção vitícola). Foi estruturado em acções objectivadas para a garantia e controlo dessa qualidade, em ligação com a preservação das características dos produtos associadas às das diversas denominações de origem. No que se refere aos aspectos e factores, de ordem vitícola ou enológica, determinantes da qualidade dos vinhos, salienta-se as linhas de trabalho visando a caracterização de variedades (designadamente por recurso a técnicas de biologia molecular) e o melhoramento genético e sanitário da videira, a racionalização da rega e da fertilização da vinha, os efeitos da aplicação de diversas tecnologias enológicas nas características dos vinhos e a implementação de técnicas de biologia molecular na caracterização de leveduras. Uma importante linha de trabalho do projecto dedicou especial relevo à segurança alimentar dos vinhos (com ênfase para a ocorrência de aminas biogénicas e de metais pesados) e às espécies químicas com potenciais efeitos benéficos na saúde do consumidor (procianidinas e derivados estilbénicos).

Os resultados obtidos têm sido sede de diversas acções para a sua divulgação junto, quer do sector produtivo, quer do meio científico: até Maio do corrente ano, foram já publicados 13 artigos científicos em revistas de circulação internacional com arbitragem científica e apresentadas 34 comunicações, publicadas em actas de encontros científicos com arbitragem científica (das quais 14 em encontros científicos internacionais), para além de diversas outras acções de divulgação junto do tecido produtivo (designadamente por intermédio de acções de formação e reciclagem de técnicos).

Como consequência da filosofia subjacente a este Programa da FCT, o projecto possibilitou ainda a realização de 6 Teses de Doutoramento (3 ainda em curso), de 3 Teses de Mestrado (2 ainda em curso) e de 20 Estágios de Fim de Curso de Licenciatura (6 ainda em curso). Possibilitou ainda o registo, no “GenBank”, da sequência parcial do gene do RNA ribossómico 26S de uma estirpe (PYCC 3044) de leveduras.

 

Laura Larcher Graça,

Investigadora Principal do DEEESA – EAN - INIAP, e Responsável do Projecto C do Parle

 

Investigação – Desenvolvimento em área de montanha no Parque Nacional da Peneda – Gerês

O Projecto Valorização de Recursos e Produtos Regionais de Qualidade em Sistemas Policulturais da Montanha e Vale no Norte do País (EDM)(1), tem cinco grandes componentes quatro das quais na montanha de Arcos de Valdevez que integra o PNPG. Aqui um excepcional património em paisagens e recursos conduziu a um reconhecimento internacional que permitiu, em 1971, a sua classificação como Parque Nacional (único em Portugal). Paisagens moldadas por séculos de ocupação humana mas onde as suas populações tem subsistido esquecidas dos centros de decisão política. Muitos emigraram e alguns voltaram mas são cada vez mais os que emigram, estando em risco a perpetuação dum Parque habitado.

No projecto que desenvolvemos foram analisadas políticas nacionais e da União Europeia, seus efeitos e a sua desadequação ao território em análise, aos seus modos de produção e de sociabilização. Também se aprofundaram questões directamente articuladas com a valorização de produtos específicos, quer os que já tem qualidade reconhecida embora não devidamente potenciada, nomeadamente carne de bovino e caprino, e outros ainda ignorados ou já esquecidos, como recursos vegetais espontâneos para utilização medicinal e culinária.

Estas linhas de investigação foram agrupadas em quatro Acções: Sistemas agrários e gestão do espaço, Valorização da carne de bovino, Valorização da carne de cabrito, Valorização medicinal dos recursos vegetais espontâneos. Na formulação do projecto procurou-se assegurar uma estreita ligação dos investigadores do INIA, depois INIAP, ao território em análise, à sua população, aos seus representantes políticos, às Associações locais e concelhias e a Instituições locais de relevo como a Confraria de Nossa Senhora da Peneda. Assim as bolseiras recrutadas no quadro deste projecto tiveram os seus gabinetes de trabalho nos Arcos de Valdevez em instalações que, numa primeira fase pertenciam à Associação Regional de Desenvolvimento do Alto Lima e, numa segunda fase, à Cooperativa dos Agricultores de Arcos de Valdevez e Ponte da Barca. Também foi estabelecido protocolo de colaboração entre o INIA e a DRAEDM (Direcção Regional de Agricultura de Entre Douro e Minho) que assegurou a colaboração de técnicos qualificados destes serviços nos trabalhos do projecto.

Os resultados das investigações realizadas têm vindo a ser apresentados em Congressos nacionais e internacionais e está prevista uma publicação própria no final da execução do projecto.

 

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