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Para bem da economia nacional, importa impulsionar o
potencial dos Serviços, defendeu em entrevista ao “Fórum
Empresarial” o presidente da Confederação de Comércio
e Serviços de Portugal (CCP), José Silva.
Políticas de internacionalização tendo em conta
as especificidades das PME e a melhor gestão dos fundos
do Quadro Comunitário de Apoio foram outras propostas
apontadas para a revitalização do Sector.
Fórum Empresarial- O sector terciário predomina na
economia. Qual o seu peso?
José Silva-No conjunto, representa 55 por cento do
emprego e 70 por cento do VAB (Valor Acrescentado Bruto)
do País. São valores que traduzem a evolução que, nas
últimas décadas, vem marcando as economias mais
desenvolvidas, embora ainda estejam aquém da média da
União Europeia a 15, revelando a existência de um
potencial mais elevado de crescimento do Sector em
Portugal.
F.E.-Entre as actividades que o constituem, quais as
mais preponderantes?
J.S.-No Sector estão incluídas quer actividades
tradicionais, que são indispensáveis ao funcionamento de
qualquer modelo económico, quer actividades projectadas
com a revolução dos TIC. É preponderante, por um lado,
o crescimento exponencial de áreas que respondem a novas
procuras, como os serviços às empresas e outros
direccionados para o consumidor com o aumento de consumos
imateriais, e, por outro lado, a forma como cada
sub-sector se relaciona com outros de modo a inovar e a
desenvolver novas actividades de maior valor acrescentado.
O peso dos serviços às empresas é aquele onde Portugal
regista um maior diferencial face à média da UE (15),
com um contributo que é, em termos relativos, metade do
valor do conjunto da UE.
F.E.-Em Portugal, tem-se assistido à rápida proliferação
de centros comerciais. Ainda há espaço para novas
grandes superfícies?
J.S.-Não; o mercado está saturado. O índice de
metros quadrados de espaços comerciais per capita não é
sinónimo de desenvolvimento. Acresce que o argumento da
criação de postos de trabalho é também falacioso, uma
vez que os empregos criados não irão compensar os 100
mil postos de trabalho que a CCP estima virem a ser
extintos se todos os projectos aprovados forem
concretizados.
F.E.-Como tem reagido o sector ao aparecimento dessas
estruturas?
J.S.- Por um lado, exigindo um quadro regulamentar
que assegure o objectivo que consta do próprio texto da
lei, que é o de “assegurar a coexistência e o equilíbrio
dos diversos formatos de comércio e garantir a respectiva
inserção espacial”. Passado mais de um ano de aplicação
da lei actual, é manifesto que contribuiu para acentuar
desequilíbrios, pondo em causa a sobrevivência de grande
parte do comércio independente. A solução é a suspensão
da aplicação da lei actual até que possa ser
reformulada.
F.E.-Como se reflectiu a crise económica nos Serviços?
J.S.-A crise económica atingiu de forma marcante o
sector do comércio e grande parte do dos serviços. A
contracção do consumo, quer das famílias quer das
empresas, coloca muitas empresas em grande dificuldade
para assegurarem a sua sobrevivência. Esta situação, se
não for travada, pode vir a ter consequências, graves no
plano social, tornando a recuperação da economia bem
mais incerta e difícil.
É fundamental que o Governo adopte um conjunto de medidas
direccionado para as pequenas empresas, de forma a reduzir
os custos de funcionamento e a viabilizar a realização
de investimento produtivo orientado para a inovação e
para a obtenção de ganhos de produtividade. O potencial
de crescimento dos serviços é uma realidade que, para
bem de toda a economia, importa impulsionar uma vez que
tem elevada capacidade de criar valor e de alterar o
obsoleto quadro de especialização em termos de competir
internacionalmente.
F.E.-Quais os efeitos das medidas tomadas pelo Governo,
nomeadamente o aumento do IVA?
J.S.-O aumento do IVA vai repercutir-se
negativamente no consumo e, logo, nas vendas no comércio
e nos serviços. É irrealista pensar que o comércio,
seja ele de pequena ou grande dimensão, tem capacidade de
absorver este aumento. Aliás, a CCP já afirmou que a
“onda” de auto-promoções na grande distribuição,
“assumindo” o aumento do imposto, só pode ter duas
leituras: ou configura uma manobra de puro marketing ou é
uma atitude suicida do ponto de vista económico e
financeiro. Não é, em qualquer dos casos, uma situação
sustentável no médio prazo.
Apoios desajustados
F.E.-A internacionalização tem sido uma aposta do
Sector?
J.S.-Excluindo os sectores dominados por grandes
empresas – banca, seguros e, em parte, os transportes
– é pouco expressivo o número de PME que se
internacionalizam. O desconhecimento dos mercados e a
falta de dimensão de muitas empresas são factores que
dificultam o processo de internacionalização.
Por outro lado, esperava-se que se fomentassem políticas
facilitadoras da internacionalização, o que não se tem
verificado. E não me refiro apenas a apoios financeiros,
mas à informação sobre as oportunidades existentes, à
facilitação dos contactos com empresas e organismos de
outros países, ao acompanhamento ao nível das regras e
procedimentos adaptados no país de destino. Os sucessivos
governos têm pensado a internacionalização na base de
projectos de grandes grupos económicos e pouco tem sido
feito para gerar uma dinâmica assente nas PME.
F.E.-Com a entrada de dez novos Estados-membros na UE,
a capacidade competitiva dos serviços nacionais diminuiu
ou abriram-se novas oportunidades?
J.S.-A situação criada com o alargamento está
longe de ser positiva para a generalidade das empresas.
Trata-se de países que concorrem directamente connosco em
múltiplos sectores, apresentando vantagens competitivas
em diversos domínios. Em paralelo, a maioria tem uma
legislação laboral mais flexível e com níveis
salariais mais baixos, o que lhes permite obter custos de
produção muito inferiores. Por outro lado, a proximidade
ao centro da Europa e aos mercados europeus de maior
potencial é um factor que os beneficia em prejuízo de
uma tendência para uma maior periferização de Portugal.
Contudo, existem oportunidades de negócio de que as
empresas portuguesas podem vir a beneficiar se apostarem
nas parcerias certas e em actividades que possam
dirigir-se a nichos específicos de mercado ou assentar em
vantagens competitivas resultantes de um know-how capaz de
gerar desempenhos de qualidade superior.
F.E.-De que modo o sector beneficiou das dotações dos
Quadros Comunitários de Apoio?
J.S.-Os apoios comunitários têm ficado aquém do
que seria natural face ao peso e relevância do sector. No
âmbito do POE/PRIME, o comércio apenas dispôs de uma
medida específica de apoio na área do urbanismo
comercial. Nas outras teve de concorrer com empresas de
outros sectores em medidas com critérios de selecção
orientados para as empresas industriais.
Uma adequada gestão de recursos financeiros, sempre
escassos, imporia que se apostasse em projectos
estruturantes da actividade empresarial, potenciando os
investimentos imateriais, as acções de cooperação
empresarial e as parcerias público-privadas e
direccionando os apoios para as PME.
Esperamos que no próximo Quadro Comunitário se dê
prioridade a estes vectores e que possam existir medidas
específicas orientadas para os factores estratégicos de
competitividade das micro, pequenas e médias empresas do
comércio e dos serviços.
Perfil
José António Fernandes da Silva,
licenciado em Organização e Gestão de Empresas pelo
ISCTE, ocupa o cargo de presidente da Confederação de
Comércio e Serviços de Portugal desde Maio do ano
passado.
Natural
de Silves, no Algarve, região onde tem desempenhado a sua
actividade empresarial e associativa, é presidente do
Conselho de Administração de várias empresas como a Fábrica
do Inglês, a Alicoop e a Alisuper, cadeia de
supermercados do Algarve. A nível associativo é
presidente de direcção da Associação de Comerciantes
do Algarve (ACRAL) e vice-presidente do Conselho Económico
e Social (CES).
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