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ENTREVISTA

 
 

Almeida Mota,

vice-presidente da APDC

 

Portugal acompanha outsourcing internacional”

Desmaterialização dos processos, deslocalização e canais de acesso ao mercado são palavras-chave que descrevem o fenómeno de outsourcing. A administração pública, assim como as empresas, terá de se modernizar e acompanhar o mercado

  Por: Madalena Sequeira

Em entrevista ao “Fórum Empresarial”, o vice-presidente da direcção da Associação Portuguesa para o Desenvolvimento das Comunicações (APDC), Almeida Mota, falou da evolução do outsourcing  no sector das telecomunicações em Portugal e nas vantagens que as empresas têm ao realizar um contrato de prestação de serviços em outsourcing. A tendência do mercado é procurar um outsourcer especializado que forneça uma solução integrada.

 

Fórum Empresarial - Qual a evolução do outsourcing nas empresas de telecomunicações em Portugal?

Almeida Mota - O outsourcing nas empresas portuguesas tem estado a acompanhar o das empresas globais.

Como é suportado, sobretudo, com base em sistemas de informação e de comunicação, o outsourcing obriga à desmaterialização dos processos de trabalho. Há a possibilidade da prestação de serviços poder ser feita em rede suportada em sistemas de telecomunicações e com base em tecnologias de informação e comunicação; permite a sua deslocalização em relação aos locais onde costumam ser tratados.

Se pensarmos que as empresas, há muito tempo atrás, tinham um grau muito elevado de auto-suficiência, temos vindo a assistir à deslocalização de parte do processo, ou seja, desde a conceptualização inicial até à entrega ao cliente final, assiste-se ao desmembramento por fases da evolução do processo, para produtos ou serviços, e em que cada fase do processo é tratada com algum grau de autonomia. As empresas que tinham um grau de auto-suficiência muito elevado, cada vez têm mais tendência a deslocalizarem, externalizarem uma parte deste processo.

Neste momento, as empresas europeias fazem o outsourcing da sua fabricação para outras localizações geográficas, aproveitando a comunalidade da linguagem e a capacidade total de desmaterialização do processo, possibilitando que este possa ser desenvolvido junto do cliente, ou a umas centenas de quilómetros da localização do cliente.

F.E. - E as empresas portuguesas já aferiram essa vantagens?

A.M - Progressivamente. Ainda que o outsourcing não deva ser associado a situações de dificuldade económica das empresas, não há dúvida de que, pelo facto destas poderem transferir operações para outras empresas complementares, que actuam em parceria com elas, traz economias de escala à prestação deste tipo de serviços. Estas economias de escala são ainda mais aliciantes em fase de retracção económica. Portanto, as empresas portuguesas vão tomando consciência e entrando nos processos de outsourcing.

 

Criação de postos de trabalho

F.E. – O outsourcing pode ser uma solução de sobrevivência para as empresas portuguesas?

A.M – A solução pode passar por aí mas, sobretudo, quando a globalização se faz dentro do mesmo espaço geográfico, as vantagens serão mais claras para a economia portuguesa uma vez que haverá economias de escala, um efeito de elasticidade no desenvolvimento do mercado que compensa essa maior produtividade no que diz respeito à criação de postos de trabalho e a ideia é poder fazer-se mais e mais barato. Ou seja, à medida que vamos externalizando essas funções em termos geográficos, estamos a transferir postos de trabalho para o mercado geográfico nacional, europeu e global. Por outro lado, é um processo que tem de ser controlado porque pode ter, como contrapartida, a transferência de postos de trabalho do espaço geográfico nacional e europeu, para zonas como a China. Esse é o problema que se enfrenta do ponto de vista do outsourcing de produção, para sectores como o dos têxteis.

F.E. – Como é que este mercado está organizado?

A.M. - O mercado reorganiza-se de acordo com as tendências; é um processo que se alimenta a si próprio e os players do mercado reorganizam-se de acordo com as tendências que encontram. Se não houvessem empresas que fornecessem serviços em regime de outsourcing, o mercado não estava organizado dessa forma.

Uma das tendências das empresas é organizarem-se por sectores de actividade a jusante do mercado cliente e este não consome apenas serviços de telecomunicações ou de tecnologias de informação, de gestão de recursos humanos ou de processamento de salários. Cada vez mais, a maior parte dos recursos das empresas se deve dedicar ao acompanhamento dos clientes finais. No limite, uma empresa que esteja junto do mercado, teria duas opções: a primeira, estabelecer 22 contratos de outsourcing e cada um deles destinar-se a cada uma das empresas especializadas para poder continuar a prestar serviços ou a fornecer produtos ao mercado. A outra alternativa é encontrar um outsourcer especializado no seu sector, que possa fornecer uma solução integrada, com uma multiplicidade de funções.

A tendência do mercado é que as empresas estejam não apenas a transferir a execução de funções isoladas, mas também a capacidade de integrar esse conjunto diversificado de funções para, em vez de ter 20 contratos de outsourcing, terem apenas dois ou três.

F.E. - Existem condições específicas para uma empresa beneficiar desta solução, como ter uma determinada capacidade financeira?

A.M - Capacidade financeira não diria, mas o outsourcing de uma função que pode ser essencial para a empresa, nunca é interpretado como abdicar dessa função em favor de terceiros. Implica sempre obrigação de gestão e controlo do processo de outsourcing.

Uma empresa que resolve lançar um processo em outsourcing, tem de ter confiança na outra empresa que lhe vai prestar serviço nesse regime, no sentido de que o serviço é prestado preservando a individualidade dos dados da empresa, não permitindo cruzamento de dados com outras empresas da concorrência...

A outra questão é de que, os serviços sejam oferecidos com economias e com um grau e uma qualidade de serviço igual ou superior à que seria prestada se a função fosse desempenhada a nível da própria empresa. Associado a uma contratação de serviços está a definição de Service Level Agreements que torna claro quais são as expectativas de quem vai comprar e as obrigações de quem vai vender o serviço em regime de outsourcing.

F.E. - Nesse caso, não é necessário um grande investimento por parte da empresa para contratar um serviço de outsourcing?

A.M. - Não. Quando for viável o recurso ao outsourcing, ele pode corresponder a uma operação que traga, de imediato, benefícios financeiros para a empresa, a uma redução dos recursos próprios da empresa. Obviamente, estes movimentos de outsourcing têm de ser cautelosos e muito bem negociados, porque a empresa tem de desenvolver-se com garantias de sustentabilidade e de continuidade na execução dos processos, sobretudo, na medida em que isso afecta o seu relacionamento com o mercado.

 

Custos fixos

F.E. – As vantagens são as mesmas para uma grande empresa ou para uma PME?

A.M. - À medida que se vai escalonando a dimensão da empresa, as vantagens serão mais claras.

Uma empresa pequena desenvolve o seu negócio individual e pela dimensão do mesmo, eventualmente conseguirá cobrir todas as suas vertentes. Provavelmente, não se justificará desmembrar o seu negócio e sub-contratar outro tipo de actividades de outsourcing.

A empresa de outsourcing tem um custo fixo. Se, por um lado, o fornecedor de serviços de outsourcing, faz alguma tentativa para que o cliente aceite estandardizar em termos dos processos que contrata no exterior, por outro lado, ele tem sempre que pegar nas suas práticas básicas e adaptá-las ao cliente em que vai centrar os serviços. E essa adaptação tem custos para ambas as partes. E a continuidade desse contrato pode trazer a vantagem de ver os custos fixos diminuídos ao longo do tempo de contratação desses serviços.

F.E. - Quais são os maiores outsourcers em Portugal, actualmente?

A.M. - Tendo em conta os outsourcings que são suportados em redes e em processos que sejam desmaterializáveis, todas as grandes  empresas da área das telecomunicações e das tecnologias de informação estão a fazer outsourcing de uma parte dos seus serviços para terceiros. Por outro lado, estão a criar capacidade de resposta e de fornecimento integrado do serviço de outsourcer ao mercado.

F.E. - Considera que o outsourcing pode ser uma boa opção de gestão na administração pública?

A.M. - Uma das questões considerada como prioritária desde o estabelecimento da «Estratégia de Lisboa», em 2000, é que é um dos sectores que pode contribuir para os ganhos de produtividade, para a modernização de processos e para o aumento de competitividade a nível do tecido económico geral do País.

As empresas têm de se modernizar, senão morrem, ficam fora do mercado.

E o Estado tem de modernizar os seus processos na medida em que conduza a economias, a maior eficiência de processos e a uma melhor prestação de serviços ao mercado.

 

Perfil

José Almeida Mota, vice-presidente da APDC, é assessor para Tecnologia do PCE da PT, SGPS. Licenciado em Engenharia Electrotécnica pelo Instituto Superior Técnico, desempenhou funções como director de Gestão Regulatória Corporativa da PT e foi responsável pela Coordenação do Projecto Euro no Grupo PT. Membro do Conselho de Administração da Radiomóvel, Almeida Mota ocupou os cargos de director de Planeamento Estratégico das Comunicações Nacionais, foi membro do Conselho de Administração da TMN e ainda director de Desenvolvimento e Engenharia nos TLP.

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