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Espanha é o país mais escolhido pelos estudantes
portugueses ao abrigo do Erasmus.
Segundo dados da Comissão Europeia, no ano lectivo
2003/04, 920 estudantes partiram para o país vizinho,
seguido de perto pela Itália que acolheu 713 alunos
nacionais. França e Alemanha são outros dos destinos
preferidos pelos portugueses (325 e 295 alunos,
respectivamente), assim como a Bélgica e a Holanda, tendo
cada um acolhido 250 estudantes lusos no ano passado. Dos
países de Leste, a Polónia é o destino mais atractivo
(125 alunos).
Todas as experiências de Erasmus são únicas e
individuais, mas o convívio e a oportunidade de conhecer
um país estrangeiro são apontados como os factores mais
atractivos da acção comunitária. Para conhecer essa
realidade, o “Fórum Empresarial” falou com três
jovens que, em anos diferentes e em áreas distintas,
optaram por usufruir do Erasmus.
Investigação
na Holanda
Joana Guimarães, hoje com 35 anos e a terminar o
doutoramento, partiu em 1992 para a Holanda quando
frequentava o 5.º ano da licenciatura em Engenharia
Alimentar na Escola Superior de Biotecnologia da
Universidade Católica Portuguesa do Porto. A experiência
foi tão positiva que, mais tarde, acabou por partir
novamente ao abrigo do Erasmus quando realizava o
doutoramento. No entanto, as realidades foram muito
distintas, a começar pelas bolsas – “da primeira vez,
a bolsa era muito superior. Tive uma bolsa de 95 contos
por mês (455 euros) e agora, para três meses, tive 600
euros e é doutoramento”.
No 5.º ano da licenciatura, Joana podia fazer uma
especialidade numa empresa portuguesa ou ir para uma
universidade no estrangeiro. Após uma palestra sobre
biologia molecular dada por um professor holandês, a então
jovem estudante ficou entusiasmada e mostrou logo
interesse em partir para a Holanda. “Foi relativamente fácil.
O professor deu-me os contactos dele e entreguei-os à
pessoa responsável pelo Erasmus e trataram de todo o
processo”. Sem saber nada do sistema de ensino holandês
e tendo como única condição que o inglês fosse o
idioma falado, partiu rumo ao desconhecido. “Fui para lá
pela aventura, por ser uma experiência diferente. Era a
primeira vez que saía de casa”, conta.
A chegada a Amesterdão correu sem incidentes; tinha quem
a esperasse no aeroporto e ficou alojada numa residência
universitária. “As pessoas fizeram tudo para que me
sentisse bem e para me integrar”, reconhece, sublinhando
que a organização que caracteriza os holandeses se
coaduna com a sua maneira de ser, o que também ajudou a
adaptar-se à nova realidade. De Setembro a Março, Joana
passava os dias no laboratório a trabalhar. Integrada num
projecto que estudava determinadas sequências de DNA que
existem na planta do tomate, fazia parte de uma equipa
constituída por investigadores holandeses. Todas as
semanas tinha de apresentar um relatório, como se fosse
um artigo para publicar numa revista científica, e tinha
reuniões de trabalho com a equipa e o coordenador do
projecto. Nesses meses, Joana considera que aprendeu
“imenso”. Sem limitações monetárias, o laboratório
dispunha de condições de investigação óptimas. À
jovem portuguesa não foi difícil adaptar-se a um grau de
investigação mais elevado; o que custou foi depois
quando fez o mestrado em Portugal e deparou-se com
“condições muito inferiores àquelas em que tinha
trabalhado na Holanda”.
A avaliação dos meses de trabalho teve por base a
realização e apresentação de um artigo final na
Holanda. Para além dessa avaliação, quando chegou a
Portugal repetiu a apresentação e a nota que trazia da
Holanda (18 valores) desceu para 16 valores. Na altura não
havia ECTS e “não havia motivos de comparação;
acharam que tinha sido beneficiada”, afirma.
A especialização que tirou na Holanda, “em termos de
procurar trabalho, não serviu de nada”, confessa Joana
Guimarães, mas foi muito útil para o mestrado.
“Trabalhei na área de qualidade, do ambiente e depois
consegui trabalhar na área de biotecnologia. Ao fim de
oito anos consegui trabalhar na área que queria, a
biologia molecular”.
Desorganização
italiana
A experiência de Bruno Pereira foi muito diferente, a
começar pela dificuldade em encontrar alojamento. No último
ano do curso de Informática de Gestão da Universidade do
Minho (2003/2004) surgiu a oportunidade de fazer o Erasmus
e considerou ser “oportuno”, pois tinha vontade de
conhecer uma cultura diferente e queria “mudar o tipo de
experiência que tinha na universidade”. Milão foi a
cidade escolhida por ser a única com protocolo compatível
com a universidade e curso que estava a tirar. Bruno
Pereira não conhecia nem a Itália, nem a língua
italiana e, antes de começar as aulas de Ingegneria
Gestionale no Politecnico di Milano, esteve um mês em
Siena a frequentar um curso intensivo do idioma de Dante.
A chegada ao aeroporto e a difícil tarefa de comprar um
bilhete de comboio sem falar o idioma e sem conseguir
fazer-se entender em inglês foi um início complicado.
Depois de ter regressado a Portugal por duas semanas,
Bruno voltou novamente sozinho a Itália, em Setembro, mas
sem problemas linguísticos. As dificuldades eram outras.
Para além da desorganização italiana, com os horários
do gabinete de apoio ao Erasmus a variar de dia para dia,
teve dificuldade em encontrar casa. A residência de
estudantes onde costumam ficar os alunos do Erasmus estava
a sofrer remodelações. “Tive 19 dias à procura de
casa. Nos primeiros dias fiquei num hotel de uma estrela
que me custou 65 euros a noite. Queria sair dali o mais
depressa possível”. Acabou por ficar 17 dias numa
camarata com 16 pessoas, numa espécie de pousada da
juventude. Consultar anúncios e ver casas marcaram os
primeiros dias do estudante por terras italianas.
“Pediam preços exorbitantes pelas casas e demorou algum
tempo até aceitar a realidade e ficar com qualquer
coisa”, conta. A bolsa de 1300 euros que recebeu para
seis meses ficou muito aquém das despesas. Só para a
casa precisava de 300 euros por mês.
A escolha das cadeiras que queria frequentar demorou algum
tempo. Bruno Pereira queria um horário que lhe permitisse
ter alguns dias livres para visitar a Itália. “Não
tinha grande restrição; podia escolher qualquer
disciplina desde que tivesse a ver com o que estava a
tirar.” O ensino italiano “é muito parecido com o
português; também é muito teórico”, lembra. “A única
coisa que achei diferente e interessante é que
periodicamente, em quase todas as disciplinas, iam quadros
de empresas, formados naquelas áreas, falar sobre as suas
experiências”.
A avaliação foi igual à dos seus colegas que não eram
do Erasmus, através de exames escritos e orais. “Nunca
tinha feito um exame oral na minha vida e fiz três em
italiano ou melhor quatro, porque num deles chumbei”,
conta divertido. A equivalência das notas em Portugal
decorreu sem problemas e não teve que fazer mais exames,
embora tenha apanhado a fase de transição para o sistema
de ECTS e a equivalência não tenha sido directa. Para
Bruno Pereira, ter participado no Erasmus foi muito
“positivo” e sente que ganhou “bastante” com essa
experiência. Quanto a efeitos na carreira profissional,
“de momento ainda não notei que tivesse, mas se me
candidatar a um emprego no estrangeiro ou a uma empresa
que tenha contactos no estrangeiro, aí acho que vai ser
uma mais-valia”.
Continuar
para mestrado
À semelhança dos outros estudantes, também Pedro
Faustino decidiu participar no Erasmus para conhecer novas
pessoas e “valorizar o currículo”. Aluno de
Electrotecnia no Instituto Superior Técnico em Lisboa,
esteve um ano em Erasmus (até Setembro passado) e ainda
continua em Delft, na Delft University of Technology,
agora como aluno de mestrado. Na Holanda, a Declaração
de Bolonha já está implementada – três anos de
licenciatura, mais dois de mestrado.
As aulas decorrem em inglês, o que facilita o dia-a-dia
de Pedro, mas “é sempre difícil entrar em círculos
sociais holandeses sem falar holandês”, contrapõe. Por
semana, Pedro tem cerca de quatro horas de aulas práticas
e 16 horas de aulas teóricas. “O estudo depende de
cadeira para cadeira, mas a vida social de um aluno
Erasmus é mais exigente do que de um aluno no seu país,
portanto, o estudo para os exames é feito nas semanas
anteriores”, reconhece. A avaliação é feita da
“mesma maneira que em qualquer faculdade de engenharia
portuguesa, através de testes, exames escritos e orais,
trabalhos práticos”.
Para além de já vigorarem as directrizes de Bolonha,
Pedro sublinha a atribuição de uma “bolsa de estudos
de cerca de 200 euros mensais mais um cartão que lhes
permite viajar em transportes públicos de graça dentro
da Holanda” como a principal diferença entre os dois
sistemas de ensino. Em relação ao IST, considera que a
Delft University of Technology “talvez esteja mais
ligada à indústria”, mas conclui que ambas são
“instituições de topo a nível europeu”, embora com
grandes diferenças orçamentais.
As expectativas que tinha
em relação ao Erasmus foram superadas, apesar de ter
sido “moroso” adaptar-se à cultura e ao estilo de
vida holandês. Da experiência no estrangeiro tem
estabelecido diversos contactos que espera o venham a
ajudar “tanto a nível profissional, como pessoal”.
Acima de tudo, Pedro Faustino quer continuar a sua vida
“como cidadão do mundo”.
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