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A tomada de posse de um novo governo, com novas políticas
e novos membros, é um momento de expectativa para os vários
quadrantes da sociedade. Depois da reforma no ensino
superior seguida pelo anterior Executivo, marcada pela
aprovação de um novo quadro legislativo que não foi bem
aceite pela classe estudantil, os olhos estão agora
voltados para a política de José Sócrates.
Analisado o Programa de Governo, as discordâncias começam
a surgir e, quer do lado dos docentes, quer dos
estudantes, as exigências fazem-se sentir. O estatuto da
carreira docente e a precariedade de emprego que afecta a
classe ou a falta de poder dos estudantes nas instituições
de ensino são algumas das questões apontadas pela
Fenprof e pela Associação Académica de Coimbra,
entidades ouvidas pelo “Fórum Empresarial”. Dois
olhares distintos sobre uma área social comum que
conhecem de perto, mas vista por diferentes ângulos: o de
quem ensina e o de quem aprende.
Lei
da autonomia é um “retrocesso”
A Associação Académica de Coimbra (AAC) tem uma visão
crítica das políticas que têm sido seguidas ao longo
dos anos no ensino superior. “Têm mudado as faces, mas
a aposta na educação tem sido sempre adiada”, acusa o
presidente da AAC, Fernando Gonçalves.
O programa do Governo socialista assenta em alguns
aspectos fundamentais que merecem a atenção da Associação.
Em relação ao ponto “garantir a qualificação dos
portugueses no espaço europeu”, o dirigente associativo
lamenta a diminuta mobilidade dos estudantes portugueses
nos programas europeus uma vez que, “neste momento, só
um por cento dos alunos” integra essas iniciativas.
“Entrar num espaço europeu de ensino superior pressupõe
a existência de condições de igualdade para a que todos
seja possível conhecer diferentes realidades e
desenvolver as suas capacidades”, aponta. A criação de
dois ciclos de ensino no âmbito de Bolonha merece algumas
reservas por parte da AAC. “A aplicação dos dois
ciclos deve ser analisada caso a caso, nunca podendo
Bolonha colocar em causa a identidade e diversidade próprias
de cada curso ou instituição”. Por outro lado, o valor
a aplicar nas propinas do segundo ciclo também é muito
relevante para a Associação. “Não aceitamos que o
Partido Socialista coloque entraves ao acesso e à frequência
deste segundo ciclo, baseado única e exclusivamente numa
perspectiva económica”, argumenta Fernando Gonçalves,
com a convicção de que “o segundo ciclo acabará por
ser relevante para o mercado de trabalho”. Já na
aprendizagem ao longo da vida, a AAC critica o facto de
“nada nos ser dito sobre as condições de incentivo à
formação das pessoas por parte das entidades públicas
ou privadas”.
O alvo das maiores críticas dos estudantes de Coimbra é
o segundo ponto do Programa de Governo: “reforçar o
sistema de ensino superior com instituições autónomas”.
Ao “retirar a posição de paridade dos estudantes dos
órgãos colegiais de deliberação, o Governo prepara-se
para cometer um dos maiores retrocessos da história da
democracia portuguesa”, acusa Fernando Gonçalves. A
Associação não entende essa alteração “quando são
os estudantes tantas e tantas vezes a assegurar o
funcionamento das instituições com a sua presença e
sendo eles os responsáveis por muitas das propostas e
projectos aprovados nos órgãos”, sublinha. O fim da
paridade nos órgãos de decisão, cuja posição será
apenas mantida nos órgãos consultivos, é, para o
dirigente associativo, “desvirtuar e encobrir uma
perspectiva muito pouco democrática da autonomia das
instituições”.
Por fim, no que diz respeito à promoção do acesso ao
ensino superior e à igualdade de oportunidades, a AAC
enumera algumas “contradições”: a manutenção do
actual valor de propina e o seu aumento para o segundo
ciclo, conhecendo-se o “acréscimo vertiginoso”
verificado nos últimos anos, são medidas que, para a
AAC, não vão ao encontro do que é prometido.
Prioridades
académicas
Traçado este cenário crítico às propostas
governamentais, o dirigente académico enumera as matérias
mais preocupantes no ensino superior e que gostaria de ver
resolvidas o mais breve possível. “Num país com uma
das mais baixas taxas de licenciados, mas simultaneamente
mais licenciados no desemprego”, Fernando Gonçalves
apela à criação de incentivos para a formação
extra-curricular dos jovens, com a universidade a formar
Homens e “não apenas futuros técnicos”.
O reforço da acção social escolar, a revogação da lei
do financiamento, a clarificação da função dos ensinos
universitário e politécnico e a criação de medidas
concretas para que o Processo de Bolonha seja um mecanismo
de promoção da igualdade europeia são outras recomendações
da AAC. Por último, e face ao desemprego que começa a
grassar entre os jovens licenciados, o dirigente académico
propõe o reforço dos mecanismos das entidades
governamentais e instituições para a informação,
“acompanhando a colocação dos recém-licenciados no
mercado de trabalho”.
Fenprof
critica ausência de medidas
Como representante dos interesses da classe docente, as
preocupações da Fenprof incidem sobretudo na falta de
medidas previstas pelo Programa de Governo para resolver o
problema da falta de condições de trabalho dos
professores.
“Regista-se como muito negativo o facto de nada se
referir quanto ao corpo docente do ensino particular e
cooperativo que continua a ser tratado de forma prepotente
e indigna por muitas entidades instituidoras” desse
subsistema de ensino”, afirma o secretário-geral da
Fenprof, Paulo Sucena. No ensino superior público, apesar
do Governo propor a revisão do estatuto de carreira,
“nada aponta para a correcção dos graves problemas da
precariedade do emprego e estrangulamento dos quadros”,
contrapõe.
Por outro lado, a Fenprof considera positivo o facto do
Governo ser favorável ao sistema binário, propondo uma
posição que vai ao encontro do que tem sido defendido
pela Federação nos últimos anos, promovendo a articulação
entre o universitário e o politécnico. No entanto, o
Programa de Governo defende que, para tal, se deve
estreitar as relações entre os dois subsistemas, o que,
segundo Paulo Sucena, “pode ser uma forma mitigada do
Executivo dizer que pretende perpetuar a existência e a
separação dos subsistemas”, posição contrária à
defendida pela Fenprof, apologista de um “sistema
integrada o diversificado”. A diversidade é,
precisamente, um valor que a Federação considera que se
deve promover, com as instituições de ensino a construírem
a sua própria identidade. “Devem fazê-lo por aprovação
de planos de actividade e de desenvolvimento estratégico
em consonância com as necessidades do desenvolvimento
nacional e regional”, afirma Paulo Sucena.
Motivar professores e investigadores
A implementação do Processo de Bolonha pode contribuir não
só para o aumento da qualidade do ensino superior, mas
também para a adopção de padrões internacionais para a
promoção do sucesso escolar e aumento da valorização
social das formações, acredita a Fenprof. Para tal,
Paulo Sucena aponta como condição sine qua non “a
motivação e a afirmação dos docentes e investigadores
do ensino superior”. O direito ao subsídio de
desemprego e o desbloqueamento das promoções e
estabilidade de emprego, “condição essencial para o
exercício das liberdades académicas”, são as
expectativas da Fenrpof para a classe docente.
A promoção do sucesso
escolar, “tendo em consideração as necessidades de
qualificação da população activa para o
desenvolvimento do País”, e a clarificação de que o
Governo “não irá reduzir o financiamento público do
ensino” são outras matérias prementes para a Fenprof.
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