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Em entrevista ao “Fórum Empresarial”, o presidente da
Associação Portuguesa do Ensino Privado (APESP) apontou
as mais-valias da presença de instituições privadas no
sistema nacional de ensino, sublinhando que “o Estado, só
por si, não tem capacidade para responder eficazmente ao
desenvolvimento de sistemas educativos modernos”.
Fórum
Empresarial- Qual o papel desempenhado pelas instituições
de ensino privado no sistema de ensino superior nacional?
Jacinto
Carvalhal- O papel do ensino privado no sistema de ensino superior,
como no sistema educativo nacional, é de afirmação da
liberdade de educação e do direito de escolha das famílias
e dos cidadãos quando adultos. O ensino privado tem um
papel insubstituível no sistema educativo para afirmar a
existência de uma oferta educativa paralela ou em concorrência,
embora em condições desiguais com a oferta pública.
Para além disso, o ensino privado deve contribuir para a
modernização e melhoria do sistema educativo.
Acreditamos na bondade da concorrência, também no
sistema educativo, embora em Portugal lhe falte o salutar
sentido da concorrência através da qual os sistemas
evoluem melhor. Circunscrevendo ao ensino superior, o
sector privado contribuiu decisivamente, num primeiro
momento, para alargar a sua oferta, para o seu crescimento
e para o aumento da população que o frequenta. Aliás,
pode dizer-se que, apesar do índice da população
qualificada com educação superior ser ainda muito baixo
no nosso País, ao longo da décadas de 80 e 90 o ensino
privado contribuiu decisivamente para o aumento dos índices
de escolarização a nível do ensino superior. Agora,
estamos num momento diferente e é preciso que o ensino
privado possa dar um contributo significativo para a
melhoria da qualidade e da relevância das formações; é
esse o desafio com que o País está confrontado.
F.E.
- Como se relacionam as seguintes vertentes do sistema de
ensino: universidades, politécnicos e privados? Concorrência
ou complementaridade?
J.C.
-
Não há verdadeira concorrência enquanto forem
substancialmente desiguais as condições de frequência
do ensino superior público e privado. Não há liberdade
de escolha; só haverá quando as pessoas puderem escolher
sem constrangimentos de ordem económica. Essa é uma
diferença substancial. A concorrência é falseada pelo
facto de as famílias e os estudantes não poderem
escolher livremente a instituição. Só poderão escolher
livremente, quando daí não resulte desigualdade económica.
De qualquer modo, há concorrência e complementaridade. Há
concorrência porque os alunos que tenham capacidade económica
podem fazer a sua opção entre o público e o privado e há
complementaridade na medida em que há muitas formações
que existem no ensino privado que ainda não existem no
ensino público.
F.E.
- Mas o Estado já concede bolsas aos estudantes do ensino
privado...
J.C.
-
É melhor do que nada. As bolsas existentes inserem-se no
âmbito da acção social escolar e abrangem apenas os
alunos integrados em famílias com mais baixos
rendimentos. E como esses parâmetros são ainda muito
baixos, atingem um número relativamente pequeno de
alunos. Portanto, esta medida das bolsas não é solução
para assegurar a livre escolha das famílias.
F.E.
- Que soluções podiam ser aplicadas?
J.C.
-
As soluções estão identificadas. Há duas grandes
formas – ou por aquilo que as famílias deduzem à
colecta dos impostos, as quantias gastas com a educação
dos seus filhos, ou então institui-se o chamado cheque
escolar em que o Estado assegura o mesmo financiamento aos
estudantes, independentemente de onde estão colocados.
F.E.
- Sem a livre escolha, pode afirmar-se que o ensino
privado é a segunda opção dos estudantes?
J.C.
-
Para muitos estudantes ainda é. É certo que é cada vez
maior o número de alunos que faz a sua escolha pelo
privado. Aliás, há já uma percentagem muito grande de
alunos que nem sequer concorre ao público ou faz logo a
sua opção pelo privado. A verdade é que os estudantes têm
tratamento desigual na medida em que o Estado assegura
propinas quase simbólicas a quem opte pelo público e não
assegura as mesmas condições aos do ensino privado.
Divisão
não tem sentido
F.E.
- Ao privado, seja em que área for, associa-se a ideia de
lucro. Pode haver o receio de que as instituições
privadas, mais do que prestar ensino de qualidade, se
interessarem pelo lucro?
J.C.
-
Julgo que esse problema não existe. Primeiro, porque
grande parte das organizações que se dedicam ao ensino e
ao ensino superior são organizações sem fins
lucrativos; são cooperativas, fundações e associações,
para além de poderem ser sociedades que, por natureza, têm
fins lucrativos. Mas isso é um sofismo. Na realidade, o
que importa avaliar no desempenho das organizações não
são os fins que elas perseguem; o que interessa é a
eficiência e a eficácia das organizações na gestão
dos recursos que mobilizam e na qualidade do serviço que
prestam. De resto, desempenhando o Estado como deve a sua
função reguladora do sistema, definindo legalmente quais
são os requisitos de qualidade que as instituições hão-de
satisfazer, esse problema está ultrapassado.
F.E.
- Os critérios para assegurar a qualidade são os mesmos
no público e no privado?
J.C.
-
São idênticos e tenderão cada vez mais a sê-lo. As
exigências quanto a instalações, equipamento, corpo
docente, investigação, todos esses requisitos tenderão
a ser comuns ao público e ao privado.
F.E.
- A fronteira entre público e privado começa a
esbater-se?
J.C.
-
Cada vez menos faz sentido falar de instituições públicas
e privadas e cada vez faz mais sentido falar da qualidade
das formações oferecidas pelas instituições. Não é tão
relevante fazer a separação dicotómica público/privado.
O Estado, só por si, não tem capacidade para responder
eficazmente ao desenvolvimento de sistemas educativos
modernos. Temos um défice de envolvimento das grandes
empresas na oferta de formações e não temos, de modo
nenhum, que atribuir ao Estado o predomínio nesta matéria.
Aliás, podemos dizer que o Estado terá tanto melhores
condições para exercer a sua função de regulação
neste sector quanto menos se confundir a sua condição de
árbitro e a de prestador directo de serviços. O Estado não
é bom regulador de uma actividade que também exerça
directamente.
F.E. - As saídas profissionais são idênticas para um
jovem licenciado por uma instituição privada ou
por uma pública?
J.C. - Cada vez mais temos instituições melhores e
outras menos boas e isso é válido tanto para o público
como para o privado. Em termos de aceitação no mercado
de trabalho, acontece o mesmo. As instituições, hoje, já
não são distinguidas por serem públicas ou privadas,
mas pelo seu prestígio, qualidade e relevância das suas
formações.
Excesso
de oferta
F.E.
- Após um boom de candidaturas ao ensino superior,
assiste-se hoje a um abrandamento. Investir no ensino
ainda é uma opção lucrativa?
J.C.
-
Não considero que alguma vez tenha sido lucrativo
investir na educação. A educação é uma actividade
que, desde que levada a sério, com sentido de
responsabilidade e rigor, não pode ser colocada ao mesmo
nível de outra actividade económica.
As instituições privadas que vivam exclusivamente do
produto das propinas dos seus alunos têm de ser viáveis.
E a única forma de serem sustentáveis é através do
equilíbrio entre os seus custos e proveitos. Hoje, com o
número de instituições e cursos excessivos
relativamente ao nível da procura, grande parte das
instituições vive com dificuldades económicas.
Há que introduzir uma maior racionalidade no ensino
superior. O sistema de ensino superior vai ter que se
adaptar ao chamado Processo de Bolonha e precisamos de
fazer um Processo de Bolonha interno, paralelo ao de nível
europeu, que consistiria num esforço de reorganização
do nosso sistema de ensino superior, público e privado,
de modo a adaptar o sistema de ensino superior àquilo que
são as perspectivas de evolução das necessidades do País.
F.E.
- Há excesso de licenciados em Portugal, tendo em conta
as necessidades de mercado?
J.C. - Não há
excesso de licenciados; há ainda um número muito
reduzido de licenciados para os índices europeus.
Portugal tem cerca de dez por cento da população com
qualificação superior quando o nível europeu é de 30
por cento. O problema são os elevados níveis de abandono
e insucesso escolar. Ao mesmo tempo que há uma redução
da população estudantil por efeito da redução da
natalidade, temos um sistema desajustado e precisamos de
promover o aumento da população que acede ao ensino
superior, reduzindo drasticamente os índices de abandono
e de insucesso escolar dos níveis básico e secundário e
de trazer ao sistema de ensino superior novos públicos,
ou seja, população activa que não tem qualificação
superior. Para isso precisamos de adequar o sistema de
ensino superior, de modo a responder também às
necessidades dessa nova potencial procura.
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